O Presidente Negro é uma narrativa de tom especulativo, com lances distópicos, ambientada nos Estados Unidos de 2228

para o grupo teatral Cia Carochinha

                     Em 2026, O Presidente Negro, de Monteiro Lobato, completa cem anos. O romance chegou ao público num momento de particular fragilidade de seu autor: no ano anterior, a Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato havia falido, Lobato vendera a Revista do Brasil e se mudara com a família para o Rio de Janeiro, onde vivia sem recursos e tentava se reerguer. Foi de lá, pelas páginas do jornal A Manhã, que lançou o livro em folhetim, antes de vê-lo publicado em livro no Natal de 1926. Em 1927, uma carta ao recém-empossado presidente Washington Luís rendeu-lhe a nomeação de adido comercial em Nova York — o que significa que O Presidente Negro foi escrito e publicado no intervalo mais precário da vida do homem que havia criado o Sítio do Picapau Amarelo. O centenário do romance é uma boa ocasião para desfazer o equívoco mais persistente do debate que o cerca: tomá-lo como espelho fiel e definitivo das convicções de Lobato sobre raça.

O Presidente Negro não é um romance de ficção científica no sentido estrito: é uma narrativa de tom especulativo, com lances distópicos, ambientada nos Estados Unidos de 2228. Lobato queria penetrar no mercado editorial norte-americano e acreditava que um enredo futurista protagonizado por americanos seria o veículo adequado. Os temas centrais — segregação racial e esterilização em massa — eram, porém, sensíveis demais para qualquer editora dos Estados Unidos, o que explica o fracasso retumbante da empreitada. O livro não elimina a dimensão ideológica do autor, mas obriga a lê-lo com a complexidade que o gênero exige, e não como tratado doutrinário. Usá-lo como espelho fiel das convicções de Lobato seria o equivalente metodológico de tomar o 1984 de Orwell como prova de que ele era totalitário. São obras de possibilidades apocalípticas, não manifestos políticos.

Lobato nas ruas de Nova York 

A polêmica sobre as relações de Lobato com o eugenismo sofre, além disso, de um problema de origem raramente nomeado: emergiu publicamente em 2011, quando a revista Bravo! publicou cartas inéditas endereçadas ao médico Arthur Neiva, e se instalou sobretudo no campo da militância antirracista, com participação marginal dos historiadores e dos críticos de literatura. O resultado foi um debate de recortes: passagens de cartas recortadas de seu contexto epistolar, cenas isoladas de romances infantis lidas fora da tradição do gênero, e O Presidente Negro tratado como documento definitivo de uma identidade intelectual imutável. O que ainda falta é uma periodização rigorosa das oscilações de Lobato, lastreada no conjunto de suas fontes — e não num único romance de ocasião somado a frações fora do contexto.

A historiografia especializada fornece esse enquadramento. A historiadora Nancy Stepan propõe o conceito de “eugenia latina”: diferentemente da variante norte-americana e alemã, a eugenia praticada nos países latino-americanos era “neolamarckiana”, apostando na transformação do meio como caminho para o melhoramento da raça, não em medidas radicais de esterilização. Lobato operava, em geral, dentro desse registro. Quando reviu o Jeca Tatu — do “parasita da terra” de Urupês (1918) ao doente curável das campanhas sanitaristas da década de 1920 —, se expressava nos supostos da eugenia positiva e ambientalista, não da eugenia negativa de extermínio. A reviravolta do Jeca é evidência de que Lobato era capaz de rever posições eugenistas; o fazia, porém, dentro da lógica eugenista, não contra ela. Daí a contradição que percorre toda a sua trajetória: a mesma pena que revisava o Jeca escrevia, em 1921, a carta a Neiva lamentando a ausência de uma Ku Klux Klan no Brasil. Essas oscilações não revelam duplicidade moral, mas a ausência de uma teoria racial elaborada e sistemática: Lobato absorvia e descartava argumentos eugênicos conforme a utilidade que tinham para seu projeto maior: a modernização produtiva do Brasil.

A historiadora norte-americana Nancy Stepan

As evidências mais robustas de uma revisãeo em curso estão em A violeta orgulhosa, escrita durante o exílio voluntário em Buenos Aires, em 1946 e 1947, na sequência imediata do conhecimento público dos crimes do nazismo. O conto é provavelmente o mais antirracista texto infantil de Lobato: o Visconde de Sabugosa explica, em termos científicos, o quão despropositada era a ideia de “superioridade ariana”. A cor das pétalas resulta de pigmentação química, não de hierarquia natural. O alvo é nomeado sem eufemismo; o argumento, estritamente científico. O conto foi publicado originalmente em espanhol, em Buenos Aires, como La violeta blanca (1947), antes de ser incorporado a Histórias diversas no Brasil. Ao contrário do que a revisão do Jeca representou — uma mudança dentro da lógica eugenista, substituindo determinismo genético por determinismo ambiental —, A violeta orgulhosa opera fora do campo eugenista: pela primeira vez, Lobato não diz que o problema é curável pelo saneamento, mas que o problema — a ideia de superioridade racial — simplesmente não existe. É uma diferença qualitativa que não apaga tudo o que veio antes, mas documenta que, no limite de sua vida, Lobato chegou a uma posição que o próprio eugenismo não poderia gerar de dentro de si mesmo.

O percurso de Lobato, do Jeca Tatu até A violeta orgulhosa, não descreve uma linha reta de evolução nem uma conversão tardia. Descreve as oscilações de um intelectual que nunca teve com o eugenismo uma relação sistemática e coerente: aderiu ao vocabulário, compartilhou o círculo, escreveu frases indefensáveis — e ao mesmo tempo denunciou a violência racial em Negrinha, publicou Lima Barreto quando a elite literária o ignorava, e, no final da vida, colocou na boca do Visconde a refutação científica da superioridade ariana.

No centenário de O Presidente Negro, o debate merece o cuidado do historiador das ideias: tratar as posições de Lobato não como um sistema coerente a ser aprovado ou condenado em bloco, mas como um processo no tempo, com avanços, recuos e revisões, lido a partir de fontes diversificadas e periodizadas com rigor. A exigência de coerência imposta retroativamente a escritores do passado é ela própria uma forma de anacronismo. E o anacronismo, como bem sabe o historiador, é o mais caro de todos os erros de leitura.