TRÉPLICA AOS PROFESSORES DA UNITAU (UNIVERSIDADE DE TAUBATÉ) THAIS TRAVASSOS E MATHEUS GABRIEL FREIRE QUE DISCORDAM DE MESTRE SEBE NOS QUESITOS RACISMO E EUGENISMO PRESENTES EM OBRAS DE MONTEIRO LOBATO
Saúdo a oportunidade deste texto como uma tréplica necessária e útil ao debate sobre uma questão que transcende a obra de Monteiro Lobato. Celebro aqui um diálogo instruído, afeito à literatura, mas que extravasa para um dos problemas mais agudos de nossa realidade: o racismo e, nele, os trajetos históricos que nos conduziram ao momento presente. Em resposta ao meu texto “Nem Monumento, nem Réu“, publicado no caderno Ilustríssima da Folha no dia 19 de abril último, dois autores, Thais Travassos e Matheus Gabriel Freire, retraçaram fragmentos dos quais destaco alguns para alimentar uma argumentação que deve continuar. Aspectos laterais foram deixados de lado em favor de explicações mais abrangentes.
Afirmar que a obra de Monteiro Lobato é racista constitui premissa já estabelecida no debate crítico contemporâneo. O desafio que se impõe, portanto, não é demonstrar tal condição, mas qualificá-la com o rigor conceitual que o tema exige. Esse esforço analítico pressupõe, antes de tudo, o reconhecimento de que vivemos sob o que se convencionou denominar “racismo estrutural” — categoria que designa não um conjunto de atitudes individuais, mas uma ordenação histórica e sistêmica da vida social, cuja violência se exerce tanto pela força quanto pela produção cultural e simbólica
A distinção entre preconceito, racismo e eugenia é, nesse contexto, operação intelectual indispensável. O preconceito constitui uma atitude individual, um julgamento negativo e infundado dirigido a pessoas ou grupos com base em características arbitrárias. O racismo ultrapassa em muito essa dimensão subjetiva: trata-se de uma articulação histórica e estrutural de hierarquização de grupos humanos fundada em características fenotípicas, cuja eficácia depende do poder social e institucional de impor e reproduzir essa hierarquia. A eugenia, por sua vez, representa a radicalização programática desse processo, a transposição da hierarquia racial para um projeto político-científico de controle da reprodução humana, orientado pela supressão dos grupos considerados “degenerados” e pelo incentivo à proliferação dos tidos como superiores, em geral com explícito respaldo estatal.
Os três conceitos articulam-se, portanto, numa escala crescente de sistematização e violência: o preconceito é comportamental, o racismo é estrutural e a eugenia é biológica e programática. A imprecisão no uso desses termos — manifesta em formulações como “racismo eugênico” — não é mero deslize terminológico; é sintoma de uma insuficiência analítica que compromete a qualidade do debate. E esse equívoco tem história que, na sua ausência, produz narrativas fracas, ainda que barulhentas, e com vocação panfletária.
A chamada Geração de 1870 representa um momento fundamental nesse processo: é quando uma elite intelectual ilustrada se investe, nos termos propostos por Nicolau Sevcenko, de uma “missão civilizatória”, assumindo a tarefa de definir o que significa ser culturalmente brasileiro. Sem compreender essa sequência, sem notar que os intelectuais da nascente República teceram um programa instrutor de políticas de Estado, torna-se impossível avaliar com precisão os termos em que se formulou, décadas depois, o problema da identidade nacional. Nesse arco, a obra de Euclides da Cunha, publicada em 1902, constitui um marco ambíguo e revelador: ao proclamar que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, Euclides tensiona, sem resolver, a contradição entre a afirmação do povo brasileiro e os pressupostos racialistas herdados do pensamento europeu oitocentista.
É precisamente nessa tensão que se insere Lobato. O percurso que vai do sertanejo euclidiano ao Jeca Tatu lobatiano — do “forte” ao “fraco”, do heroico ao patológico — não é ruptura, mas deslocamento sintomático: ambos os projetos intelectuais respondem, cada um a seu modo, às demandas de uma modernidade que se queria construir sobre bases racialmente seletivas. Isolar Lobato desse andamento histórico mais amplo equivale a examinar a árvore sem perceber a floresta; é reduzir a crítica literária a um exercício de julgamento moral descontextualizado, privando-a da densidade histórica e historiográfica sem a qual qualquer juízo permanece incompleto e, em última instância, anacrônico.
Anacronismo é conceito essencial para qualquer discussão séria sobre temporalidades. Os comentadores que responderam ao meu texto revelam, infelizmente, certa displicência diante dessa categoria. Sem critérios claros, procedem a uma “presentificação” dos efeitos de uma tradição cultural discriminatória, isolando Lobato de um caudaloso rio de preconceito no qual ele nadava acompanhado de muitos. Julgar valores de um tempo a partir de outro momento histórico não é operação trivial, nem coisa a ser descartada em debate que se pretenda rigoroso, mais que isso é leviandade. Ortega y Gasset, já no início do século XX, identificava no que chamava de “homem-massa” sujeitos que, por preguiça intelectual, tomam o próprio espaço e tempo como medida universal de todas as coisas. Não perceber que o tempo pretérito constitui e habita o presente não é virtude crítica: é, ao contrário, condenar a história à superficialidade.
Há, além disso, um equívoco factual que precisa ser corrigido com precisão. Jamais afirmei que Lobato tinha uma leitura apressada do eugenismo, aliás, o argumento é exatamente o inverso. Rhaiane das Graças Mendonça Leal e André Felipe Candido documentam que a correspondência entre Arthur Neiva e Lobato se estendeu por 24 anos, de 1918 a 1942, compondo um corpus de 138 cartas, das quais 85 foram escritas pelo próprio Lobato. Some-se a isso a correspondência intensa com Renato Kehl, com Roquette-Pinto e com outros protagonistas do movimento eugenista brasileiro, e o que se tem é um intelectual profundamente inserido naquele debate — não um observador distante ou mal-informado.
É igualmente imperdoável desconhecer as nuances do eugenismo brasileiro e latino-americano. Nossa composição étnica é marcada pela presença de contingentes que perturbam a radicalidade de que deram prova certos países europeus. Há tonalidades, sim, e elas não adoçam a eugenia radical, mas se distanciam dela e revelam a trama da adaptação que marcou a inscrição de grupos não conquistadores no padrão dos invasores. É a esse imperativo que respondem o sanitarismo e as campanhas de modernização aplicadas no Brasil e, sem dúvida, é nelas que Lobato se integrou de corpo e alma. O extermínio proposto em O Presidente Negro foi, sim, um erro — ele mesmo o admitiu, ainda que extravasando seu desapontamento de modo condenável. Mas há algo mais que os estudos biográficos permitem ver: a coerência que Lobato busca após 1945. Um homem tão contraditório — genialmente contraditório, diga-se — ao se recolher na Argentina depois da combinação de sucesso como escritor e fracasso como empresário, Lobato articula dois aspectos: o posicionamento político sobre o qual se firma depois das eleições de 1947 e uma revisão de suas posições sobre o racismo. Que os críticos leiam com atenção “A Violeta Orgulhosa” e, em vez de enxergar apenas mais um conto, percebam o rescaldo de um pensador que errou muito.
Opinião do movimento negro na primeira página do periódico porta-voz daquele movimento
O reconhecimento do erro é, por certo, insuficiente, escasso, mas não é destituído de sentido, sobretudo quando confrontado com a recepção que certos segmentos negros da época dispensaram à obra lobatiana. Vejamos como o próprio movimento negro acolheu O Presidente Negro: o jornal Alvorada, porta-voz da vanguarda negra em São Paulo, em 1945 — portanto, dezessete anos após a primeira edição do livro —, saudava calorosamente o texto de Lobato, estampando na primeira página agradecimento entusiasmado pela dedicação “daquele que é o apontado por muita gente como o maior escritor contemporâneo”. O texto vai muito além: exulta o livro por ter “se ocupado dos negros e o fez com aquele estilo inconfundível e brilhante” e, não satisfeito, arremata afirmando que o escreveu “com aquele humor e com aquela liberdade de opinião que caracteriza sua obra”. Essa recepção não absolve Lobato, mas complica qualquer leitura unívoca — e a complicação é, aqui, epistemicamente necessária. Falamos do mais importante jornal negro do tempo saudando Lobato exatamente por algo que hoje, panfletariamente, é condenado.
A variação de posições que se registra ao longo da obra lobatiana demanda, portanto, explicações mais sofisticadas do que a simples inconsistência ignorante. Demanda estudo, conhecimento, pesquisa. Lobato não se explica sem que se considere a força do contexto que o formou. Não era apenas o neto do Visconde de Tremembé: era também o neto de uma mulher comum, amante do nobre poderoso, e essa origem ambivalente marcou profundamente uma trajetória que os leitores de viés monumentalista, para o bem ou para o mal, tendem a apagar. Tampouco se pode ignorar os registros que complicam qualquer redução esquemática: “Negrinha“, “O Jardineiro Timóteo“, “Os Negros“. Quem foi, afinal, o editor que lutou de forma obstinada para publicar Lima Barreto quando este mal encontrava portas abertas? Quem sustentou Belmonte como negro, num gesto de reconhecimento que ia além do meramente instrumental? Viriato Correia, escritor negro assumido, ao lançar “Meu Torrão” em 1945, dedicou o livro a Monteiro Lobato, reconhecendo-o como “mestre de nós todos que escrevemos para crianças”. Se há quem sinta desconforto em sala de aula de literatura, uma saída responsável seria respeitar a opinião de negros em outros tempos e, em vez de apressar julgamentos sobre pensadores respeitáveis, cumprir o dever sagrado de pesquisa aplicável a professores sérios. E discutir em vez de cancelar é o desafio inteligente. Dá trabalho, mas…
Lobato lutou para publicar os autores negros Lima Barreto e Viriato Correia que lhe dedicou seu livro
Insiste-se, Lobato foi, sim, profundamente contraditório, e o foi em múltiplas dimensões. A ojeriza visceral a Vargas, a crítica sistemática ao clero, a misoginia que perpassa certos textos: tudo isso compõe um perfil que não se resolve pela afirmação genérica de que “era racista”. Foi, antes, um sujeito intensamente pressionado por circunstâncias históricas e por conflitos de classe que seus críticos mais apressados raramente examinam com o cuidado necessário. Desprezar o empresário que faliu ao sonhar com a democratização do livro no Brasil, ignorar o intelectual que se atolou em batalhas sobre saúde pública e depois sobre o petróleo, para reter apenas o eugenista não é rigor analítico, é amputação interpretativa. Reduzir Lobato a racista é também queimar na fogueira do cancelamento o primeiro best-seller do país, o escritor que ensinou gerações inteiras — os chamados “filhos de Lobato” — a pensar, a imaginar e a amar a leitura por meio do Sítio do Picapau Amarelo.
Há ainda uma questão que os críticos se esquivam de responder: por que Lobato? Por que não José de Alencar, defensor confesso da escravidão e autor de cartas públicas em defesa do sistema? Por que não Gonçalves Dias, que teve “seis negrinhos” como herança paterna? E que dizer de Xavier Marques, Júlio Ribeiro ou Aluísio Azevedo, lembrando inclusive que Francisco de Paula Brito, o formidável criador da imprensa negra no Brasil, foi detentor de escravos —, todos eles atravessados pelo determinismo racial do naturalismo oitocentista? Por que não Manuel Bandeira, cuja “negra Irene” cristaliza numa única imagem — Licença, meu branco! — o paternalismo condescendente da elite letrada brasileira? Respostas existem, e merecem ser formuladas com honestidade: Lobato é o mais vendido, o mais lido, o autor mais presente no imaginário nacional — e por isso se torna alvo privilegiado. Nos Estados Unidos, o equivalente estrutural desse debate é Mark Twain, cujos Tom Sawyer e Huckleberry Finn enfrentam periodicamente os mesmos dilemas entre o valor literário e os estereótipos raciais que os atravessam.
Que fique claro: não advogo protocolo algum de leitura, nem pretendo estabelecer trilhos interpretativos obrigatórios. O que defendo é a leitura literária instruída e discutida e não cerceada por recalques, mas informada pela história, pela historiografia e pelo esforço de compreender cada obra em seu tempo sem abrir mão de julgá-la no nosso. Aprendi com Lobato o prazer imenso de sorver histórias — e aprendi também, com ele e apesar dele, a submetê-las à crítica. Com isso coloco um ponto provisório neste diálogo que, espero, prossiga com o vigor e o respeito que o tema exige. E digo mais, sempre gostei de Lobato, sempre, mas tive – e escrevi sobre isso – visões diferentes das que detenho depois de mais de sessenta anos debruçado sobre a trajetória do “Taubateano rebelde”
Encerro com a lição mais duradoura de minha carreira de pesquisador e de professor: não ensinamos nada a ninguém. O que podemos fazer — e é muito — é exercitar o raciocínio e, sobretudo, a disposição crítica (instruída). Preocupa-me, por isso, ver pesquisadores recolherem-se a entrelugares convenientes, protegidos por mediações que os eximem do risco do argumento instruído. Saiam desses abrigos, aliviem suas culpas. Assumam a responsabilidade intelectual de defender posições fundamentadas e não panfletárias, quebrem o medo de se expor ao contraditório. Em vez de um paternalismo acadêmico que blinda os estudantes das tensões do debate, sejam mediadores que os convidem à arena. Deixem-nos falar — e, sobretudo, deixem-nos exercitar a crítica. É assim, e não de outro modo, que se formam leitores capazes de entender o passado no presente. Críticos e instruídos. Crítico e instruídos como ensinou José Bento Monteiro Lobato com seus erros e acertos.





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