No Brasil, o hino é cantado com lágrimas nos olhos antes de uma partida de futebol

Há nos hinos nacionais algo de comovente e ligeiramente preocupante. São canções que começam solenes e terminam convocando a população inteira para morrer em nome de uma colina estratégica.

O século XIX foi particularmente entusiasmado nesse quesito. Era o tempo em que as nações se diziam: “Vamos compor algo que nos una… e, se possível, que nos convoque ao sacrifício coletivo”.

Tomemos a vibrante La Marseillaise. É praticamente um manual de instruções para enfrentar “o sangue impuro” que regará os campos. Não é exatamente uma canção de piquenique. É trilha sonora para barricada com bandeira ao vento e olhar determinado. A melodia é tão contagiante que a gente quase esquece que está cantando sobre invasões e armas. Os franceses, aliás, não estavam sozinhos na empolgação marcial. O Il Canto degli Italiani, também conhecido como “Fratelli d’Italia”, é outro exemplo do espírito romântico armado. Fala-se em coortes, em união, em morte pronta para a pátria. É como se cada verso dissesse: “Cantar é belo, mas combater é indispensável”.

Às armas cidadãos, resume a Marselhesa, hino libertário da França

O século XIX tinha essa sutileza: primeiro se escrevia poesia, depois se organizava a infantaria. Mesmo o nosso Hino Nacional Brasileiro, embora mais lírico e sinuoso, não escapa da ostentação épica. Há margens plácidas, sim, mas também há “penhor dessa igualdade” garantido “com braço forte”. Braço forte, repare. Não é antebraço moderado nem pulso diplomático. É braço forte mesmo, musculatura cívica pronta para eventualidades.

Já o The Star-Spangled Banner, nascido sob o clarão de foguetes e bombas, descreve a bandeira sobrevivendo bravamente a uma noite de bombardeio. É quase uma transmissão ao vivo da guerra de 1812, com efeitos especiais pirotécnicos incluídos. O orgulho nacional vem acompanhado de pólvora. E o que dizer de Deutschlandlied? Escrito em pleno fervor nacionalista do século XIX, carrega o espírito da unificação e da identidade comum. A versão atual é mais comedida, mas nasceu num contexto em que a ideia de nação vinha embalada com discursos inflamados e uniformes bem passados.

Era o século das independências, das unificações, das fronteiras traçadas a régua e sangue. Natural que os hinos refletissem o clima. Ninguém compõe uma ode nacional dizendo: “Se der, a gente conversa”. O tom é sempre definitivo. Ou liberdade ou morte. Ou glória ou nada. É a lógica do pagamento mortal: a pátria entrega identidade; o cidadão, se necessário, entrega a vida. Há algo teatral nisso tudo. Imagine se os hinos fossem escritos hoje com o mesmo entusiasmo bélico: “Dos aplicativos à fibra óptica; seremos bravos no Wi-Fi instável!” Mas não. O século XIX não economizava no drama. Cada verso precisava soar como se fosse declamado do alto de um cavalo branco, com vento estratégico soprando a favor.

“Fratelli d’Italia” virou culto à guerra e repúdio ao Iluminismo

O curioso é que cantamos esses hinos em eventos esportivos com a mão no peito e olhos marejados, por exemplo, antes de uma partida de futebol. Ninguém ali pretende invadir território alheio; no máximo, a grande batalha será contra a defesa adversária. Ainda assim, entoamos versos que evocam batalhas navais, campos tingidos de sangue e juramentos definitivos.

Os hinos são cápsulas do tempo. Guardam a mentalidade de uma era em que nação era projeto épico, e morrer por ela era argumento retórico aceitável. Hoje preferimos pagar impostos, o que já é um tipo menos poético de sacrifício. Talvez devêssemos ouvir nossos hinos com um leve sorriso histórico. Reconhecer a coragem que expressam, mas também a grandiloquência própria de um século que acreditava em destinos manifestos e heroísmos uniformizados. No fundo, os hinos são como parentes solenes em festas de família. Falam alto, lembram glórias antigas e exigem postura ereta. Nós obedecemos, respeitosos, mesmo sabendo que a guerra mais próxima talvez seja apenas contra o trânsito de segunda-feira.

E assim seguimos: cantando bravamente, de pé, celebrando vitórias históricas, enquanto torcemos para que o único combate do dia seja alcançar a sobremesa antes que acabe.