Sempre desconfiei dos muito bonzinhos. Não dos bons, esses são raros e discretos, mas dos bonzinhos com certificado de pureza plastificado. Aqueles que caminham como se flutuassem dois centímetros acima do chão, distribuindo sorrisos com juros espirituais. Por quê? Simples: a história ensina que todo diabo já foi anjo. O caso mais famoso é o de Lúcifer, que começou a carreira como estrela da manhã e terminou como síndico do inferno. Um currículo respeitável, convenhamos. A queda não foi por incompetência técnica, mas por excesso de brilho próprio. Moral da história: cuidado com quem reluz demais.
Os arcanjos, por sua vez, sempre me pareceram chefes de departamento celestial. Miguel Arcanjo com sua espada administrativa, Gabriel no setor de comunicação, Rafael cuidando da saúde pública do além. Uma burocracia organizada. Mas basta um pequeno desvio de vaidade, um concurso de popularidade nas nuvens, e pronto: surge um ex-querubim ressentido. No cotidiano, também há anjos em treinamento para a queda.
Conheço gente que começou a vida distribuindo bolos caseiros na vizinhança e hoje distribui indiretas nas redes sociais. Começou com “imagina, não foi nada” e evoluiu para “eu sempre fiz tudo por você”. É um processo sutil. O anjo vai ganhando consciência do próprio halo e, quando percebe, está cobrando taxa de luminosidade. Há os arcanjos da moral alheia. Aqueles que fiscalizam pecados com planilha em Excel. São especialistas em detectar a falha do outro com lupa espiritual. Mas basta uma tentaçãozinha promocional, um cargo, um aplauso, uma vantagem indevida, e o halo começa a piscar.
O problema do anjo é acreditar demais na própria santidade. Quando a criatura passa a se achar incapaz de erro, já está ensaiando a coreografia da queda. Os diabos que foram anjos costumam ter excelente retórica. Sabem falar de virtude porque já a frequentaram. São os ex-bonzinhos que conhecem os atalhos da tentação e os vendem com sotaque de autoridade. “Eu só quero o seu bem”, dizem, enquanto reorganizam o mundo a favor de si mesmos. É curioso como a transformação raramente é dramática. Não há trovão, nem fumaça. O que há é uma sequência de pequenas concessões. Um elogio aceito com excesso de gosto. Uma crítica devolvida com leve veneno. Um “eu mereço” que começa legítimo e termina imperial.
Arcanjos: Anjos da alta hierarquia
Até Satanás, em sua fase inicial, era apenas alguém descontente com a hierarquia celestial. Quem nunca? O problema é quando o descontentamento vira projeto de poder. Mas não sejamos severos demais. Também existem anjos que foram quase diabos e desistiram a tempo. Gente que sentiu o gosto da maldade elegante e achou indigesto. Esses merecem aplauso discreto. Porque a bondade verdadeira é a que já visitou o abismo e preferiu a varanda.
Talvez todos sejamos, em alguma medida, candidatos a ex-anjos. Começamos a vida com boas intenções, prometendo honestidade integral e paciência ilimitada. Depois, a realidade nos apresenta fila de banco, reunião de condomínio e comentários maldosos. O halo entorta.
O segredo, suspeito, é desconfiar do próprio brilho. Anjo que se leva a sério demais corre risco de combustão moral. Já o que admite suas sombras mantém as asas mais ajustadas. No fundo, a diferença entre anjo e diabo pode ser apenas a gestão do ego. Um administra. O outro faz campanha. Por isso, quando encontro alguém excessivamente puro, de sorriso permanente e discurso impecável, cumprimento com respeito, e mantenho prudente distância. A história mostra que os maiores incêndios começam com faíscas de luz demais.
Quanto a mim, cultivo asas modestas. Prefiro o anjo que sabe que pode cair ao que jura jamais tropeçar. Porque, como ensina a tradição com uma ponta de humor cósmico, o inferno não foi inaugurado por um demônio qualquer. Foi fundado por um anjo promovido demais.

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