Há alguns anos, assisti ao filme Se Eu Fosse Você, uma comédia leve em que um casal trocava de corpos por encanto de um terreiro de umbanda. O marido acordava de salto alto, a esposa com a lâmina da barba; o riso surgia da vingança biológica: ele descobrindo que sutiã não foi invenção de algum amigo das mulheres; ela entendendo por que homem passa quinze minutos hipnotizado por uma furadeira sem tocá-la. Na época, gargalhei sem parar. Gostei tanto que vi a continuidade.

Hoje, aos oitenta e três anos, viúvo, filhos distantes, uma neta e um bisneto na Holanda, imagino uma versão mais cruel e realista dessa trama. Olhando para o espelho impossível, me pergunto: e se eu fosse minha mãe? Habitar o meu corpo lhe seria penitência que nem mártir suporta sem queixa.

Mamãe me veria procurando óculos pela casa inteira com eles pendurados no pescoço. Me veria guardando o controle remoto na geladeira e o pão no armário de remédios. Outro dia, indignado por quarenta minutos, acusei alguém de esconder minhas chaves, sendo que eu mesmo as segurava. Que ela diria ao descobrir que adormeci num velório, ou que por duas vezes esqueci as compras no supermercado? Observaria tudo em silêncio ancestral e perigoso, para depois soltar: “Esse menino nasceu avoado; não aprende”. E eu, com oitenta e três anos, encolheria aos oito, de calça curta e cabelo escorrido. Eis o prodígio das mães: reduzem idoso aposentado a menino indefeso.

Dali, com absoluta certeza, ela indagaria pelos filhos. Eu contaria que telefonam mais do que visitam, sempre perguntando pelos remédios que é, aliás, a versão geriátrica do “já chegou?”. O mais velho me recebe com planilhas, calculando minha expectativa de vida, monitorando pressão e visitas médicas. O do meio insiste em denunciar o tamanho da minha barriga e sempre me convida para pizzas em horário de novela. O caçula me examina em silêncio, como radiografia velha, sugerindo dietas e exercícios sem pronunciar palavra. Netos me amam por sete minutos exatos, até os celulares os reclamarem. Noras são musas diplomáticas: tratam-me como vaso antigo: ninguém joga fora, mas todos temem quebrar. Minha mãe ouviria toda minha ladainha e soltaria, implacável: “Você também deu trabalho pro seu pai”. Irrefutável. Mães morrem sem perder a razão.

A conversa faria parada alegre e alongada no bisneto holandês. “Holanda? Tão longe? Não tinha mais perto?”, ela exclamaria. Eu explicaria que o pequerrucho é mais que lindo e que está aprendendo a falar português, inglês e holandês ao mesmo tempo. Eu, que esqueço “escorredor” e gaguejo “aquele negócio do macarrão”, tenho herdeiro trilíngue. “O que ele come?” “Arenque cru.” “Cru? Coitadinho!” Então viria a bronca inevitável — camiseta velha, louça acumulada, sono tardio ante a TV, geladeira vazia. “Você não come direito.” O octogenário de coluna ruim abaixa a cabeça. Mãe nos reconduz ao tamanho da alma.

Mas, feita a bronca, ela notaria o silêncio da casa. Prato solitário na pia, cama arrumada de um lado só, TV noturna como socorro, não como companhia. O silêncio do viúvo não é ausência de som, mas de testemunha: ninguém nota o avanço da careca, mais de três livros abertos, o jantar pulado. A casa mostra-se educada demais. Converso com plantas: uma, batizada Mariinha, sim, com o nome dela, verde e vistosa, sempre que dá floresce e, tenho certeza, morrerá se não for ao meu enterro. O bisneto aparece em pixels — cresce, aprende, faz graça. Se um dia me chamar “overgrootvader”; acho que me desmancharei sem conseguir pronunciar. Retruco fotos: “Meu bisneto “. Minha neta, lindíssima, responde com um coração emoji — farol para náufrago.

No Dia das Mães do ano passado, contemplei uma foto nossa dos anos 1970: mamãe ao meu lado, vestido feito por ela, cabelo arrumadinho, sorriso sabedor e eu feliz. Percebi que há quarenta anos ninguém me chama de “meu filho”. Filhos me chamam de pai. Netos, de vô. Médico, de senhor. Banco, de cliente preferencial — eufemismo de sobrevivente. A orfandade verdadeira é perder quem ignora nossa idade.

Beijei a foto e chorei feio, infantil: muitos soluços, ombro tremendo, atravessando décadas. Saudade dela, da esposa, do bisneto longe, dos filhos ocupados, do silêncio, dos óculos perdidos, do tempo ladrão. No meio do choro, ri: “Homem velho chorando assim? Parece criança!”, ela diria. Talvez a velhice seja a infância que regressa — desaprendemos a força, a pressa, tememos o escuro, queremos mãe.

Graças a Deus, fui seu filho. Se eu fosse ela hoje, faria tudo igual. Igualzinho — exceto a despedida: ficaria cinco minutos mais abraçado, ignorando as urgências. Há saudades passageiras. A da mãe mora no eterno.