E por falar em eleições, há sempre ele: o Eleitor Neutro. Figura elegante, sobrancelha arqueada, tom ponderado. Ele não é “nem isso, nem aquilo”. É independente. Isento. Acima das paixões rasteiras que movem os simples mortais. Pelo menos é o que ele diz.

O Eleitor Neutro não torce. Ele “analisa”. Não discute. “Pondera”. Não defende candidato. “Observa cenários”. É um ser quase científico, movido a gráficos invisíveis e princípios etéreos. Naturalmente, ele tem opiniões fortíssimas, mas apenas contra um dos lados.

Se você elogia o candidato A, ele suspira: “É… precisamos ver com cautela.”
Se você critica o candidato B, ele endireita a coluna: “Finalmente alguém lúcido!” O Eleitor Neutro começa suas frases com “Eu não tenho político de estimação, mas…”. O “mas” é o momento em que a neutralidade tira o paletó e entra em campo de chuteiras.

Ele acompanha todos os debates, para não se deixar manipular. Compartilha apenas artigos “equilibrados”, curiosamente publicados por portais que confirmam suas convicções equilibradíssimas. Quando confrontado, explica: “Não sou de direita nem de esquerda. Sou do bom senso.” O bom senso, nesse caso, vota sempre no mesmo lugar.

O Eleitor Neutro tem alergia à palavra “militância”. Ele não milita; ele “questiona”. Não faz campanha; ele “traz dados”. Não espalha opinião; ele “estimula reflexão”. Curiosamente, sua reflexão costuma terminar na urna já decidida.

]

Há também a versão gourmet do Eleitor Neutro. Esse cita filósofos no meio da discussão eleitoral. Invoca Tocqueville no café da manhã e Montesquieu no jantar. Declara-se preocupado com as instituições, a estabilidade, a democracia — desde que o resultado final coincida com sua serenidade pessoal. Ele detesta polarização. Acha feio. Lamenta o clima bélico das redes sociais. Faz longos posts pedindo diálogo, geralmente terminando com uma indireta cirúrgica contra quem pensa diferente. O Eleitor Neutro acredita que os extremos são perigosos. E, por uma coincidência matemática impressionante, o extremo perigoso é sempre o outro.

Nas conversas de família, ele ocupa o centro da mesa. Não levanta a voz. Usa expressões como “vamos elevar o nível”. Quando alguém apresenta um argumento consistente que contraria sua posição independente, ele sorri com paciência pedagógica: “Você está sendo emocional.” Ele, claro, não é emocional. Apenas sente uma irritação muito racional quando seu candidato neutro é criticado.

O mais fascinante é que o Eleitor Neutro se orgulha da própria autonomia. “Eu não sigo manada.” De fato, não segue. Ele lidera um pequeno rebanho imaginário composto exclusivamente por pessoas que pensam exatamente como ele — de forma independente. Nas redes sociais, seu perfil é discreto. Nada de bandeiras explícitas. Apenas comentários sutis, memes cuidadosamente ambíguos e um ou outro elogio estratégico. Caso o vento mude, ele pode afirmar, sem corar: “Eu sempre fui crítico.” A neutralidade do Eleitor Neutro é uma obra de engenharia narrativa. Ele constrói uma identidade acima da disputa — enquanto participa dela com disciplina olímpica.

E há o momento sublime da apuração. Diante da vitória de seu candidato não preferido, ele declara: “O povo escolheu. Democracia é isso.” Mas acrescenta, com leve suspiro: “Agora vamos ver as consequências.” Se seu candidato neutro vence, ele comenta com moderação calculada: “Espero que governe para todos.” Tradução simultânea: “Vencemos.”

No fundo, o Eleitor Neutro não é um hipócrita. É apenas humano. Quer pertencer, quer ter razão, quer estar do lado certo da história — mas sem a sujeira emocional da torcida. Talvez todos sejamos um pouco Eleitor Neutro. Gostamos da ideia de independência. Soa nobre. Soa adulto. O problema é que independência absoluta é mito, como dieta em dezembro. No fim das contas, o Eleitor Neutro vai à urna com a serenidade de um juiz constitucional. Digita os números com convicção silenciosa. Sai da cabine eleitoral com expressão enigmática. E, se alguém perguntar em quem votou, ele responde com um sorriso sábio: Votei no Brasil. Claro que votou. Neutro como sempre.