Sempre nos orgulhamos de dizer que o Brasil é um país sem extremos. Aqui não há furacões cinematográficos, nem nevascas que soterram automóveis, nem outonos dourados dignos de cartão-postal suíço. Somos um povo equilibrado, térmico, tropicalmente moderado: Até que chove demais; ou seca demais; ou venta demais; ou faz um calor que transforma as calçadas em chapa de pastel. Mas, fora esses pequenos “demais”, vivemos num paraíso climático estável. Pelo menos é o que repetimos com patriotismo meteorológico.

Ainda assim, celebramos as estações como se morássemos em Viena. Basta o calendário anunciar setembro para alguém declarar solenemente: “Chegou a primavera.” Chegou? Talvez. Em algum ponto abstrato da atmosfera. Porque, na prática, a primavera brasileira pode começar com 38 graus à sombra e um temporal que alaga três bairros. Mas não importa. É primavera. Está decidido. O marketing já confirmou: as casas de moda vibram, lançam a “coleção primavera-verão”, expressão que sempre me intrigou. Se a primavera já parece verão, o que exatamente diferencia uma da outra? Talvez a quantidade de flores estampadas.

As vitrines explodem em cores. Manequins sorridentes vestem tecidos leves, esvoaçantes, como se estivessem prestes a caminhar por campos de lavanda inexistentes. Aqui, no entanto, o campo mais próximo costuma ser o de futebol do bairro, e olhe lá. Há também os perfumes sazonais. Primavera pede fragrância floral. Como se nosso cotidiano precisasse de reforço botânico. O calor já faz a natureza exalar intensamente; ainda assim, borrifamos sobre nós uma promessa engarrafada de jardim europeu.

O inverno, por sua vez, é outro espetáculo de imaginação coletiva. Uma frente fria derruba a temperatura para 17 graus e imediatamente surgem cachecóis, botas e postagens dramáticas: “Que frio!” As lojas aproveitam e exibem casacos que parecem projetados para atravessar os Alpes. Usamos lã sob o sol tímido das nove da  manhã, apenas para carregá-la no braço às duas da tarde, quando o termômetro decide voltar à normalidade tropical. Mas é inverno. Precisamos honrá-lo.

Vitrines anunciam cada estação

Somos mestres em viver simbolicamente as estações. Na primavera, falamos em renascimento. Fazemos planos, organizamos armários, prometemos florescer. Como se agosto tivesse sido uma espécie de hibernação nórdica. Não foi. Apenas sobrevivemos a variações de umidade. No outono, esse personagem quase figurante em nosso calendário, fingimos perceber folhas caindo. Às vezes há, sim, uma ou outra árvore colaborativa. Mas a maior parte do drama outonal acontece no Instagram.

O curioso é que, apesar de proclamarmos ausência de extremos, convivemos com exageros sazonais bastante expressivos. A seca que racha o solo, a chuva que desce com vocação bíblica, o vento que vira guarda-chuva do avesso. Mas nada disso abala nossa convicção: somos climaticamente equilibrados.

Enchente em Porto Alegre

Talvez o que celebramos não seja a meteorologia, mas a ideia de ciclo. Precisamos acreditar que algo muda, que o tempo se organiza em capítulos claros. Primavera soa otimista. Verão é promessa. Inverno sugere introspecção. Outono, maturidade. É quase literatura aplicada ao clima. E as marcas sabem disso. Vendem não apenas roupas, mas estações emocionais. A “nova coleção” é, no fundo, uma tentativa de sincronizar guarda-roupa e esperança. Quando alguém anuncia: “Amo a primavera”, raramente está falando de temperatura média. Está falando de luz, de possibilidade, de flores simbólicas. Mesmo que o céu esteja indeciso entre sol abrasador e tempestade tropical.

No Brasil, a primavera não chega com tulipas disciplinadas nem com pássaros migratórios organizados. Chega com promoções, vitrines coloridas e um desejo coletivo de recomeço. Se o clima às vezes exagera, nós exageramos junto: nas estampas, nos perfumes, nas expectativas. Celebramos as estações como quem participa de uma peça europeia encenada em cenário tropical. No fim das contas, pouco importa se o inverno dura três dias ou se a primavera começa com temporal. O importante é declarar, com entusiasmo: “Mudou a estação.” Nem que seja só no guarda-roupa.