A cada quatro anos ele acorda. Não precisa de despertador; basta um jingle oficial da FIFA e um comercial de televisão com câmera lenta. Surge então o Torcedor Padrão da Copa do Mundo, essa criatura sazonal, meio patriota, meio comentarista esportivo, meio estilista de verde e amarelo.
O Torcedor Padrão não acompanha as eliminatórias. Não sabe quem é o lateral-esquerdo reserva. Mas, no dia da estreia, veste a camisa oficial comprada em doze parcelas patrióticas e declara, com convicção enciclopédica: “Esse técnico não sabe o que está fazendo”. Ele nunca treinou um time. Mas treinaria melhor.
O Torcedor Padrão domina expressões técnicas como “faltou vontade”, “tem que chutar de fora da área” e “é só jogar simples”. O “é só” é sua contribuição tática mais valiosa. Resolveria conflitos geopolíticos com a mesma simplicidade: “É só conversar”.
Na Copa, ele se transforma em especialista multidisciplinar. Analisa preparo físico, psicologia esportiva e até astrologia do elenco. Se o atacante perde um gol, ele sentencia: “Sentiu a pressão”. Se acerta, foi graças à força da torcida, ou seja, dele.
Há também o figurino. O Torcedor Padrão não economiza. Usa peruca verde, óculos com bandeirinhas, capa, buzina e, se possível, uma tatuagem temporária da bandeira nacional no antebraço. Durante noventa minutos, ele se sente uma mistura de estrategista militar com carnavalesco. Aliás, a Copa é o único momento em que a pessoa pinta o rosto sem ser questionada sobre sua sanidade.
O Torcedor Padrão também adota rituais. Não senta no mesmo lugar do primeiro jogo porque “dá azar”. Não troca de camisa no intervalo. Não atende telefone durante o ataque decisivo. Ele acredita, com fé científica, que sua postura no sofá influencia o desempenho do volante em campo. Se o time vence, ele diz: “Eu sabia”. Se perde, ele afirma: “Eu avisei”. O Torcedor Padrão sempre avisou alguma coisa — mesmo que ninguém recorde exatamente o quê.
No ambiente coletivo, ele é ainda mais performático. Em bares lotados, levanta-se a cada lance como se fosse entrar em campo. Abraça desconhecidos após o gol, chama o garçom de “professor” e canta o hino com volume digno de coral sinfônico. No fundo, o Torcedor Padrão não quer apenas a vitória. Ele quer a narrativa. Quer postar a foto com a legenda épica: “Pra cima!” Quer participar da epopeia global em tempo real. A Copa oferece isso: uma chance de heroísmo doméstico.
Durante o torneio, ele também redescobre a geografia. Aprende onde fica a Eslováquia, comenta o sistema tático do Senegal e pronuncia com ousadia sobrenomes impronunciáveis. Tudo com a autoridade de quem, até a semana anterior, confundia amistoso com churrasco. E quando o time é eliminado? Ah, aí surge o filósofo. “O importante é competir”. “Foi um aprendizado”. “Daqui a quatro anos tem mais”. Em poucos minutos, o estrategista inflamado se converte em monge budista da bola.

Torcida na fan fest do Vale do Anhangabaú durante partida entre Brasil e Costa Rica pela Copa da Rússia, São Paulo SP, 22/06/2018, Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press
Mas não o subestimemos. O Torcedor Padrão cumpre papel social relevante. Ele cria laços improváveis. Gente que não se falava há meses se reúne para discutir impedimentos. Vizinho que nunca deu bom-dia agora empresta bandeira. O país inteiro sincroniza emoções por noventa minutos. É exagerado? Sem dúvida. Dramático? Frequentemente. Mas há beleza nesse excesso. A cada Copa, o Torcedor Padrão revive o sonho coletivo. Ele acredita que um gol pode redimir crises econômicas, que uma vitória une diferenças políticas e que um pênalti convertido é sinal inequívoco de destino manifesto.
No último jogo, quando o juiz apita o fim, ele guarda a camisa, desinstala o aplicativo de estatísticas e volta à vida normal. Até o próximo ciclo de quatro anos. Mas basta surgir novo mascote oficial para que ele desperte outra vez, vibrante, analítico e profundamente convicto de que, se estivesse lá, teria feito diferente. E teria mesmo. Do sofá.

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