Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ontem e hoje
Há falhas de caráter tão previsíveis que devia existir um boletim meteorológico para anunciá‑las: “Hoje, risco alto de hybris em ambientes com grandes saldos e pouca humildade.” Se Daniel Vorcaro tivesse lido um pouco mais de tragédia grega e um pouco menos o próprio extrato bancário, talvez o Banco Master ainda estivesse na praça. Agora que dispõe de tempo livre para rever sua pedregosa trajetória o que antes foram extratos — e que agora são boletins do Ministério Público —, seguem algumas recomendações bibliográficas. Sem rancor: todo bom leitor merece uma segunda chance. Até o leitor mais obtuso pode aprender algo com Deus e com os clássicos; o que não deve aprender é a confundir balanço com profecia.
Comecemos pela Bíblia, não por piedade, mas por precisão clínica. Provérbios oferece máximas incômodas que teriam poupado muitas operações criativas: “Riquezas mal adquiridas não aproveitam, mas a justiça livra da morte” (Provérbios 10:2) — escrito quando o mercado financeiro ainda não tinha term sheets, mas a lição já valia.
O Êxodo funciona como metáfora exemplar: não interessa aqui a marcha para a liberdade, mas a cena em que, na ausência do líder, o povo funde o ouro para adorar um bezerro. É a imagem perfeita de confiar no brilho de um ativo sem conteúdo. Os israelitas fizeram penitência; o Banco Central aplicou liquidação extrajudicial.
Eclesiastes, por sua vez, é o manual do despojamento involuntário: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Eclesiastes 1:2–3). O autor não conheceu CDB, mas teria ripostado contra qualquer prospecto que prometesse eternidade.
No Novo Testamento, a cena em que Jesus expulsa os mercadores do templo é de uma atualidade quase constrangedora: mesas viradas contra quem transforma o sagrado em câmbio. A polícia varreu algumas mesas também — com menos liturgia e mais diligência. “Não ajunteis tesouros na terra…” (Mateus 6:19) soa redundante se o problema não for justamente que, desta vez, os ladrões e os banqueiros partilhavam o mesmo escritório.
Da literatura profana, O Grande Gatsby é leitura inaugural: um homem que forja uma grandeza para si mesmo e vive de ilusões que o mercado — por conveniência ou cegueira — alimenta. Gatsby tinha charme e ficção; o senhor tem processo e jato.
Gatsby tinha charme e ficção; o senhor tem processo e jato
Yuval Noah Harari, em Sapiens, lembra que o dinheiro é uma ficção coletiva. Quando a ficção vira invenção particular, deixa de ser visão e vira crime — sutileza que o Código Penal aprecia.
Dostoiévski, Kafka e Cervantes fecham a lista à guisa de advertência: Raskólnikov, Josef K. e Dom Quixote ensinam, em diferentes registros, que o delírio de grandeza, a burocracia opaca e o excesso de leitura incongruente podem produzir resultados pitorescos — e, para alguns, desastrosos.
A lista poderia continuar — há extensa bibliografia sobre controles internos e ética corporativa —, mas a crônica tem limites de misericórdia. Daniel Vorcaro leu bem as oportunidades; só esqueceu de abrir as páginas que tratam do fim das histórias em que tudo dá certo. Essas páginas estão em todos os livros citados. E no Código Penal.
Boa leitura, senhor Vorcaro. O FGC não paga livros, mas cobre até R$ 250 mil por depositante — e isso, por enquanto, ainda é real. Resta saber se o mesmo se poderá dizer das próximas páginas da sua história.

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