Evaldo Amaro Vieira dá continuidade a sua visão do caipira a partir das conclusões que tirou de suas leituras de autores não convencionais e livres das limitações de modelos acadêmicos a respeito do tema

Um dos livros mais escondidos dos leitores é o de Cornélio Pires, denominado CONVERSAS AO PÉ DO FOGO, Imprensa Oficial do Estado IMESP, edição fac-similar da edição de 1921, em São Paulo, 1987. Livro popular realmente, ou seja, uma literatura que o povo conta ou canta.

Afinal, o caipira paulista “é um obscuro e um forte?” Tocando gado e cavalo, com tropas cargueiras por caminhos esburacados, no meio de matas virgens e rios perigosos, atoleiros e pantanais, percorrendo campos e campos, viajando léguas a pé ou sobre o burro.

Quem são os caipiras? Em geral nascidos na zona rural, em contato com a natureza. “Eles agem mais pelo coração que pela cabeça. Tímidos e desconfiados, argutos e mesmo simplórios. Comumente inicia a vida de trabalho como puxador de enxada, transforma-se em seguida carpinteiro, ferreiro, tecedor de taquaras, construtor de pontes e assim por diante.”

A essência do caipira é a improvisação, embora não seja o único improvisador.

“Se os ôtro fáis…proque não hi de fazê!… Não agaranto muito, mais vê exprementá”.

Não desejam ser camaradas pois não desejam “ser forçados a trabalhar”, por isto são mal pagos “e em vales com valor em determinadas casas, onde os preços são absurdos, e mais ao comprar fiado”.

O caipira da cidade mostra que sabe ler, mostra também timidez em lugares grandes e estranhos, pensando que todo mundo o observa, alterando o andar, o jeito e a roupa. Sua música e seu canto revelam algo de roceiro, triste, quase sempre em falsete. A poesia abaixo caracteriza a existência caipira:

AS MORENAS DO MEU BAIRRO

 Rapaziada do meu bairro,

tudo eles pinotêia,

por amar moças bunita

desprezando as moça feia.

Pincha o barro nas bunita

e as marvada inda farceia…

 

Namôro por noite escura,

p´ro craridão da candeia.

Meu namoro é descuberto,

Que tuda a gente bazeia.

Tano perto da morena…

Sobe e desce as sombranceia…

 

Rapasiada tão casano,

tão botano o pé na peia…

Chega dumingo, dia santo,

fica in casa e não passeia.

Leva Nha Tuca lá in casa…

Tá c´oa purga atrais da oreia.

Nem que quera dá seus “pulo”

Se atrapaia nas manêra.

 

E assim vai…para finalizar:

Quem ama o aieio

Num trais a vida sigura!

 

Cornélio Pires cria vários tipos de “Caipira Branco”, “Caipira Caboclo” e “Caipira Preto”, reproduzindo o racismo da época, numa sociedade ainda indefinida em classes, ao contrário do que se acredita hoje nos melhores estudos. Tal tipologia desapareceu com os anos, permanecendo o racismo generalizado baseado no estigma.

Porém, o livro de Cornélio Pires divulga amplo e variado vocabulário, do qual são exemplos: água-de-açúcar; aguado; amó-que; aparlermado; aporrinhar; arma-penada; as-coisa-feito; baderna; barba-de-bode; banzé; bobagem; bocó; caboclo; cambaio;…

Trata-se de obra bem diversa, abrangendo “estudinhos, costumes, contos, anedotas, cenas da escravidão”.