Para Ana Regina Gatti

Hoje resolvi encarar o exagero, essa arte nacional de aumentar o mundo até que caiba dentro das palavras e, para tanto, escolhi o amor como pretexto, porque em nenhum outro território humano a hipérbole floresce com tanta exuberância, perfume e descontrole.

O exagero é lente de aumento aplicada a esse sentimento que não tolera a medida justa, precisa da vertigem e é assim que o amor se transforma em religião. Não se gosta, adora-se. Não se deseja, idolatra-se. Não se sofre, agoniza-se. O coração não pulsa, explode. A ausência não incomoda, corrói. A saudade não dói, dilacera como se a anatomia tivesse sido reinventada apenas para comportar tragédias íntimas.

“Morrer de amor” tornou-se expressão banal, repetida com a naturalidade de quem pede café. A frase corre solta, irresponsável, como se o afeto fosse capaz de interromper funções vitais e convocar cortejos fúnebres sentimentais. Se a metáfora fosse literal, o mundo seria um imenso cemitério de apaixonados, cada decepção gerando um obituário, cada término exigindo luto oficial e bandeiras a meio mastro.

O exagero amoroso não admite pequenas proporções. Um encontro casual vira destino inescapável; uma afinidade vira alma gêmea; um gesto gentil transforma-se em prova irrefutável de eternidade; um olhar cruzado vira “a metade da laranja”. Três dias bastam para que se construam castelos, palácios, genealogias futuras, nomes de filhos e planos de aposentadoria compartilhada. A imaginação trabalha em regime de urgência, como se o amor precisasse ser monumental ou não valesse a pena.

E quando a realidade, sempre menos teatral, ousa impor limitações, o exagero não recua, reage. Uma discordância vira incompatibilidade absoluta. Um silêncio transforma-se em traição metafísica. Uma dúvida assume a forma de catástrofe irreparável. O sentimento, que poderia ser apenas tristeza, converte-se em ruína, devastação, colapso da alma.

Há quem transforme cada paixão em último capítulo da própria biografia, como se não houvesse depois. Ama-se como se estivesse à beira do abismo, sofre-se como se não houvesse amanhã. A linguagem se enche de superlativos, advérbios inflamados, promessas perpétuas, juras irreversíveis. O amor deixa de ser experiência, vira drama. E quanto mais grandioso o discurso, maior a necessidade de convencer a si mesmo da intensidade proclamada.

O exagero também se infiltra na felicidade amorosa. Não basta estar contente, é preciso êxtase. Não basta sentir companhia, exige-se dissolução das fronteiras individuais. O outro deixa de ser pessoa e passa a ser destino, salvação, resposta definitiva para perguntas que talvez nunca tenham sido feitas com clareza. Deposita-se no amado/a a responsabilidade de preencher vazios antigos, curar feridas remotas, reorganizar a própria história.

O exagero cobra do sentimento o que não foi prometido: permanência absoluta, intensidade ininterrupta, felicidade sem fissuras. Quando essas promessas implícitas falham, instala-se a sensação de tragédia, como se o universo tivesse quebrado um contrato invisível.

No entanto, apesar de todas as mortes anunciadas, ninguém sucumbe. Sobrevive-se a cada “fim definitivo”, respira-se depois de cada “destruição total”, reencontra-se equilíbrio após cada “queda irreversível”. O coração, acusado de fragilidade extrema, revela resistência silenciosa. Ele não morre; adapta-se. Não se pulveriza; reorganiza-se. Não encerra a própria história, apenas muda de capítulo.

Talvez o exagero amoroso seja uma tentativa desesperada de tornar o sentimento proporcional à sua importância. Como amar é grande demais para caber em frases simples, recorre-se à hipérbole. Mas, ao inflar demais as palavras, esvazia-se a experiência. Quando tudo é absoluto, nada é raro. Quando cada paixão é eterna, nenhuma precisa de cuidado.

Falar de exagero amoroso é reconhecer que somos criaturas inclinadas ao espetáculo, fascinadas pelo excesso, seduzidas pela grandiosidade. Mas talvez a verdadeira maturidade consista em amar sem necrológio antecipado, sofrer sem decretar apocalipses, sentir profundamente sem transformar cada emoção em manchete interna.

No fim, continuamos vivos depois de cada “morte de amor”. E essa sobrevivência repetida, discreta e quase humilde, é a prova de que o coração suporta mais realidade do que o exagero gosta de admitir.