Existe uma categoria de sofrimento humano que a ciência ainda não catalogou, mas que todo brasileiro reconhece de longe. Chama-se “quase”. E eu defendo, com a convicção de quem já perdeu um pênalti na cobrança decisiva do campeonato, que “quase” dói mais do que qualquer última colocação.
O último lugar não carrega expectativa, não recebe palmadinha nas costas com aquele “tente novamente” que na verdade significa “você foi péssimo”. O último lugar dispensa reclamação. Já o segundo lugar – ah, o segundo lugar é uma tragédia grega. Vejamos mais exemplos, porque toda boa crônica precisa contar casos.
Exemplo 1: o sinal verde. Você está atrasado, acelera com a fé de quem reza em silêncio, e o sinal fecha exatamente quando o para-choque do seu carro cruza a faixa de pedestres. Não fechou antes. Não ficou aberto. Ficou naquele amarelo cruel que existe só para lembrar que o universo tem senso de humor e ele é sádico.
Exemplo 2: o “quase” da loteria. Cinco números certos, um errado. Cinco! Você passa a semana inteira imaginando a casa de praia, o carro novo, a viagem para a Europa com hotéis 5 estrelas. Aí descobre que errou por um número, não pelos cinco, o que seria uma decepção honesta, mas por UM. A diferença entre você e um milionário se resume a uma bolinha que rolou para o lado errado dentro de uma máquina de plástico. Isso não é azar. Isso é o destino rindo de você em câmera lenta.
Exemplo 3: o elevador. Você corre pelo saguão do prédio, vê as portas do elevador começando a fechar, estende a mão como um herói de filme de ação, e a pessoa lá dentro, que viu você chegando, aperta o botão de fechar com mais entusiasmo. As portas se fecham a três centímetros dos seus dedos. Você não perdeu o elevador por estar longe. Você perdeu por estar perto demais, o que é filosoficamente mais grave.
Exemplo 4: a prova, o emprego, o Enem da vida. “Faltou meio ponto.” Frase que deveria ser proibida por lei, pronunciada por professores com uma calma quase profissional, como quem entrega um diagnóstico médico. Meio ponto. Você estudou um semestre inteiro, decorou fórmulas, citou Foucault sem nunca ter lido Foucault direito, e tudo desmoronou por meio ponto que, sejamos honestos, é basicamente nada, mas que separa você de quem passou com a mesma clareza que separa Everest de buraco.
Exemplo 5: o gol anulado no fim do jogo. Bola na rede, torcida gritando GOOOLLL e o juiz aponta impedimento de meio dedão do pé. Meio dedão!
O que todos esses casos têm em comum não é o fracasso, pelo reverso, é a proximidade obscena do sucesso. É ver o prêmio, tocar a borda dele com a ponta dos dedos, sentir o cheiro da vitória, e então assistir a porta bater na sua cara com a educação de um “não foi dessa vez”.
Porque perder feio a gente supera. Dói, mas cicatriza rápido. Já o “quase” é aquele tipo de ferida que nunca fecha direito, porque toda vez que você conta a história reabre um pouquinho, e você jura, com a mão no coração, que da próxima vez vai ser diferente.
Vai não. Mas o “quase” também tem lá sua elegância: é a prova de que você chegou perto o suficiente para doer. E, convenhamos, é sempre uma ótima história para contar, mesmo sabendo que, no fundo, ninguém gosta de segundo lugar. A gente só aprende a sobreviver a ele com um pouco de humor, e uma pitada generosa de indignação. Voltemos ao começo: quase é ou não é a pior palavra do dicionário?


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