para Paulo de Tarso Venceslau

A vida de cronista deveria vir com garantia de fábrica e cláusula de insalubridade. O acordo, em tese, é simples: escrever textos leves, temperado com ironia elegante sobre as pequenas mazelas humanas, algo perfeitamente descartável, para ser lido enquanto se mastiga o pão com manteiga e esquecer antes de a primeira xícara de café esfriar.

Estava eu cumprindo essa missão com usual empenho. Livre, por uma vez, da picaretagem política, entreguei ao editor um texto mais saboroso sobre a história do samba. A resposta veio sem poesia: o sujeito praticamente me mandou escrever de dentro de uma lona de circo pegando fogo. Guardei o samba na gaveta. Entrou em cena o Caso Master.

E o circo pegou fogo de verdade, porque além de cronista carrego o vício incurável de ser historiador. O historiador é o chato treinado para olhar qualquer vazamento “bomba” na imprensa e perguntar: quem encomendou isso, a que horas e com que interesse? Na história, a “coincidência” jornalística costuma ter nome, CPF e endereço fixo. Tentar escrever com leveza sobre o Banco Master é como tentar dançar valsa numa gafieira: os passos não alcançam o ritmo.

Relações não republicanas uniram o magistrado e o banqueiro

Tudo nesse enredo tenta se fantasiar de tragédia grega, ainda que a escala seja modesta. Daniel Vorcaro está longe de ser um Agamêmnon, e o Banco Central se parece mais com um cartório burocrático do que com o Oráculo de Delfos. Mas a estrutura, essa sim, é puramente helênica: uma verdadeira tragédia.

Primeiro vem a hybris, a soberba clássica: o sujeito que se acha esperto demais para um enredo de crentes. Em poucos anos, o “herói” montou um banco que prometia lucros mágicos, adquiria precatórios como quem compra banana e distribuía sorrisos pela Faria Lima. Parecia genuinamente convencido de que as leis da física financeira não se aplicavam ao seu jeitinho. A peripécia, o tombo espetaculoso, veio quando a Polícia Federal o interceptou tentando deixar o país.

Mas a melhor parte do teatro não é o herói caindo da ribalta. É o Coro. Nas peças antigas, o Coro entrava em cena para anunciar verdades e avisar que a casa ia desabar. No Caso Master, o Coro se disfarça de “vazamento seletivo”. Um print aqui, um pedaço de delação ali, um depoimento que escorre por um duto misterioso e deságua no jornalismo no instante exato em que mais interessa a alguém. A situação chegou a tal ponto que o diretor do BC, Ailton de Aquino, admitiu à PF que a autarquia vivia um ambiente de vazamentos tão sistemáticos que a cúpula precisou se recolher numa espécie de conclave secreto para deliberar sem que a decisão virasse munição na praça.

A ironia da tragédia moderna é essa: o vazamento nasce de mão bem calculada — investigador, advogado, político ou assessor em pânico —, mas, assim que ganha a rua, vira um cão sem dono. Nikolas Ferreira reclamou de ter virado “refém”; o PT temeu que o estilhaço acertasse sua janela; o boslonarismo assumiu a fantasia do “problema deles”; o grupo Prerrogativas viu ali um retorno ao auge da Lava Jato. A plateia inteira assiste apavorada, à espera da próxima pedrada, temendo ser a próxima a cair.

A catarse foi substituída por um campeonato de vingança

Na Grécia antiga, o sofrimento do protagonista trazia catarse — a purificação da polis. Aqui, não. No circo do Banco Master, o que resta é apenas um campeonato de vingança: a cada vazamento responde-se com um contra-vazamento, enquanto assistimos à cena sabendo que o desfecho já foi selado nos porões de Brasília, muito antes de o primeiro panfleto ser impresso.

Se existe um Oráculo nessa história, ele não fala por enigmas nem solta fumaça divina: opera por mensagem anônima, com imagem em anexo, e sabe com precisão cirúrgica qual podridão convém revelar e qual convém deixar apodrecer no escuro. É a única profecia que essa tragédia sem coro nem catarse ainda consegue cumprir: a de que, na polis brasileira, a verdade nunca vem para purificar: vem para acertar contas.