A discussão de bar só ficou mais chique. Se antes o torcedor acusava o juiz de má intenção, hoje acusa o algoritmo
De vez enquanto me ponho a filosofar sobre a modernidade. Acostumado a leituras sobre crítica, filosofia e história, acontece de por pé no chão e ver a realidade com óculos menos teóricos. Foi assim que saturado pela copa do mundo me permiti perguntar “E agora José?” Não resta dúvida que “a festa acabou”, mas trouxe de presente umas coisas esquisitas e entre elas a consagração do “VAR”.
Pois é, prometeram-nos a perfeição secular. Garantiram que a tecnologia erradicaria a injustiça dos gramados e que a figura do juiz ladrão seria varrida para as páginas poéticas e nostálgicas da história. A máquina, pura e imparcial, traria a verdade. Hoje, a única coisa que a tecnologia conseguiu foi transformar a maior paixão nacional numa angustiante sessão de tribunal administrativo.
O futebol, que costumava ser um esporte de noventa minutos, virou um evento de duas horas e meia intercalado por longos períodos de meditação burocrática. O lance acontece, a rede balança, o estádio explode em urros de catarse… e imediatamente congela. Ninguém mais comemora um gol com a alma; comemora-se com um asterisco. O torcedor moderno aprendeu a travar o grito na garganta, olhar para o árbitro e esperar pelo ritual sagrado: a mãozinha no fone de ouvido.
A partir desse segundo, a paixão dá lugar à física quântica. Numa sala refrigerada a quilômetros do estádio, três sujeitos de terno ou agasalho esportivo passam sete minutos traçando linhas coloridas em uma tela dividida. Mapeiam se a axila do atacante estava um milímetro à frente do calcanhar do zagueiro, ou se a molécula da chuteira tocou na bola antes do tornozelo. O futebol virou uma disputa de geometria analítica em que a emoção morre na ponta de um transferidor digital.
O mais fascinante é que a tecnologia não eliminou a polêmica; apenas deu a ela um ar de sofisticação científica. Antes, a culpa pelo erro era do juiz que “não viu” ou do bandeirinha que “estava encoberto”. Agora, a culpa é da câmera 5B que não tinha o ângulo certo, ou da linha amarela que foi desenhada no frame errado. A discussão de bar não mudou um milímetro — só ficou mais chique. Se antes o torcedor acusava o juiz de má intenção, hoje acusa o algoritmo.
No fim das contas, a inteligência do VAR conseguiu criar uma contradição primorosa: nunca fomos tão precisos para estragar o espetáculo. Queríamos o fim da injustiça, mas ganhamos o fim do orgasmo futebolístico — aquele segundo sagrado em que a bola estufa a rede e o mundo para. Hoje, o mundo continua parando, mas é para ver um homem de preto encarar uma televisãozinha à beira do campo enquanto milhares de pessoas na arquibancada rezam para que a sua alegria não seja anulada por conta de um fio de cabelo fora do lugar. Trocou-se a poesia do imponderável pelo rigor das telas e, no meio dessa burocracia sem graça, tiro os óculos digitais, desligo a TV e me pergunto se não era muito melhor quando eu apenas me punha a filosofar.


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