Confesso que me vi numa encruzilhada. Acostumado às crônicas domingueiras — textos leves, de conversa fiada com o leitor —, de repente me vi tomado por um impulso irresistível: escrever a resenha de um livro que promete inflamar debates que o país prefere não sustentar.

A leitura de O Brasil dos Evangélicos: o que o crescimento pentecostal significa para o país, de autoria de Juliano Spyer, publicado pela Editora Planeta e lançado no dia 17 último na elegante Livraria da Vila, na Avenida Paulista, ajudou a reacender o fogo — e, confesso, a desconfiar um pouco do cenário do lançamento. Há algo de irônico em apresentar um livro sobre periferia evangélica num dos endereços mais nobres da Paulista, mas isso é assunto para outra conversa.

O livro reúne cinco ensaios de certa autonomia entre si, emoldurados por uma Apresentação de título provocador — “Quem tem medo dos evangélicos” — e por uma Conclusão que soa quase sermônica: “o que você deve lembrar deste livro e levar para a vida”. Já o sumário, de ares etnográficos e tom que se quer científico, mexe com as fibras mais sensíveis do comportamento social e político brasileiro contemporâneo — e chega como amadurecimento de uma trajetória autoral já bem desenhada.

Juliano Spyer, aytor

Publicações anteriores credenciam Spyer como uma das vozes mais ouvidas no debate público sobre a expansão da fé evangélica no Brasil. Conhecido com Povo de Deus: Quem São os Evangélicos e Por Que Eles Importam (2020), foi finalista do Prêmio Jabuti, obra que mostrou como a igreja evangélica — sobretudo o pentecostalismo das periferias — funciona como rede vital de solidariedade, apoio comunitário e proteção social aonde o Estado não chega. Agora o autor encara um dos nós mais urgentes do debate contemporâneo: a polarização, o extremismo e as ambiguidades de um país em transformação sociorreligiosa acelerada.

Escrito a partir do olhar de um pesquisador que não pertence ao universo religioso — o que lhe dá distância sem tirar-lhe empatia —, o livro recusa as duas armadilhas mais óbvias: a simplificação e o pânico moral. Spyer propõe algo mais difícil e valioso: uma leitura humana do cotidiano da fé popular nas vilas e periferias. Ilumina o papel da igreja como espaço de pertencimento e perspectiva de vida para milhões de pessoas vulneráveis, sem poupar as contradições do fenômeno, as tensões com a política institucional e o distanciamento — quase constrangimento — que elites e setores progressistas mantêm com esse universo.

Sustentando um timbre que não perde o rigor analítico, Spyer avança com cuidado, mas sem meias palavras, sobre aspectos incômodos ao julgamento apressado que domina o imaginário público — e não tem medo de dar nome aos bois: os intelectuais de modos afrancesados, a esquerda que perde fôlego argumentativo diante do enigma evangélico, a igreja católica que cede terreno por inércia. Racismo étnico e de classe, feminismo, sexismo: nenhum tema delicado escapa à mesa. Mas o cardápio das incompreensões não é prato único — o autor também aponta contradições internas do universo evangélico, como a rejeição aos cultos de matriz africana, o suicídio de fieis e os escândalos sexuais que atingiram pastores de projeção nacional. É aí que a discussão política se amplia, e o livro fica mais incômodo, e por isso mais interessante: ao iluminar as contradições dos conservadores, Spyer não deixa no escuro os pastores e fiéis de esquerda.

A exemplificação é exuberante — tem nome, sobrenome e fato que amparam cada afirmação. Um dos pontos altos é a análise de Michelle Bolsonaro que, casada com o capitão que sintetiza como poucos o machismo e a submissão da mulher ao homem, escapa do enquadramento puramente marital e se torna, ela própria, emblema da complexidade. Desfilam pelo livro nomes como Silas Malafaia e Edir Macedo, lideranças analisadas não como caricatura, mas como peças de um quebra-cabeça mais amplo — e bem mais incômodo do que a maioria dos leitores gostaria de admitir. O mesmo se diz das evocações ao Estado de Israel e à relação com outros credos.

É esse o mérito maior de O Brasil dos Evangélicos: recusar-se, do primeiro ao último ensaio, à tentação da caricatura e do estereótipo fácil. Spyer não escreve para confortar quem já tem opinião formada — nem os que temem os evangélicos, nem os que os defendem sem crítica. Escreve para quem ainda está disposto a encarar um Brasil que mudou de rosto e de fé.

Fica aqui uma nota pessoal, que não sei escrever sem certo orgulho: Juliano foi meu aluno, e juntos partilhamos, no Departamento de História da USP, anos de pesquisa que ajudaram a formar os destinos de ambos. Historiadores de ofício, sempre fizemos questão de sair dos gabinetes e caminhar para os temas populares — os indígenas Kaiowá, Carolina Maria de Jesus, o futebol, o carnaval. Hoje, com trajetória própria e voz reconhecida, Juliano segue esse mesmo impulso: o de mostrar, com rigor e sensibilidade, a vitalidade de uma história popular brasileira que insiste em não caber nos rótulos que tanto gostamos de aplicar.