Toda geração tem o seu bicho-papão tecnológico. Muda a fantasia, mas o grito é sempre o mesmo: “isso vai acabar com tudo!” E toda geração, passado o susto, olha para trás e ri perguntando: como se vivia sem isso?
Foi assim com o fogão elétrico, que minha avó jurava que ia explodir e o mesmo se repetiu com minha mãe que chegou a pensar que o fogão à gás era fatal. Foi assim com a luz elétrica, acusada de cegar quem ousasse acendê-la em casa. O micro-ondas foi condenado como arma de destruição em massa disfarçada de eletrodoméstico de cozinha compacta, e o trem, coitado, foi temido por supostamente derreter passageiros expostos a 50 km/h.
Os computadores prometiam acabar com o emprego e com o raciocínio humano nos anos 1970; hoje cabem no bolso. A televisão foi anunciada como coveira do cinema — e o cinema, além de sobreviver, ainda cobra caríssimo pela pipoca. O livro eletrônico ia fechar todas as livrarias; duas décadas depois, o Kindle dorme na bolsa ao lado de um livro de capa dura comprado por impulso, os dois em paz, sem ciúmes.
Ou seja: a humanidade tem um histórico invejável de prever o apocalipse errado. E o padrão, olhando com um pouco mais de distância, não é coincidência: tecnologia disruptiva raramente destrói o ecossistema social — ela o reconfigura, aposentando funções obsoletas e criando, no lugar delas, dinâmicas de trabalho e de consumo que ninguém tinha como imaginar antes.
Agora é a vez da inteligência artificial sentar na cadeira do réu. E, diferente dos casos anteriores, aqui talvez o susto tenha razão de ser — só que não pelo motivo de sempre. A IA não vai explodir a cozinha nem cegar ninguém, mas ela é uma tecnologia de propósito geral, com uma diferença crucial em relação às ondas de pânico do passado: dessa vez a automação não mira só o braço, mira também o raciocínio. Isso já provoca deslocamento real de funções tradicionais e exige requalificação profissional em escala — e vem por aí, sim, uma revisão e tanto de como se ensina, como se aprende, como se trabalha, e até de como as pessoas se relacionam, porque já tem gente conversando mais com chatbot do que com vizinho (assunto para outra crônica).
Então sim: é hora de se preparar para mudanças radicais — inclusive discutir a regulação necessária para atravessá-las sem atropelo — e não de fechar os olhos torcendo para que passe como susto de fogão elétrico.
Mas calma, que ainda dá para dormir tranquilo. A inteligência artificial opera com reconhecimento de padrões e estatística em escala industrial; ela não tem consciência, intencionalidade, nem sensibilidade subjetiva. Por mais inteligente que finja ser, não sente saudade, não se emociona com final de novela, não erra a mão numa declaração de amor às três da manhã, não tem ciúme, não faz as pazes depois de uma briga boba — e, convenhamos, também não faz sexo (façam o favor de tirar essa ideia da cabeça, e sim, alguém certamente já perguntou pro ChatGPT). O discernimento ético, a empatia, a criatividade que nasce do contexto e o julgamento diante da ambiguidade continuam sendo, por enquanto, um território exclusivamente nosso.
Talvez o verdadeiro exercício não seja temer a inteligência artificial nem idolatrá-la, mas fazer o que a humanidade sempre soube fazer melhor do que qualquer máquina: aprender a conviver com o novo sem perder de vista o que só o humano ainda sabe fazer.


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