A um mês do primeiro turno da eleição nacional, a semana começa com pelo menos uma bomba: a quebra de sigilo do processo que envolve o ministro do STF Alexandre de Moraes e o Procurador Geral da República (PGR) Paulo Gonet com o Banco Master. Os rumos eleitorais estão mais nebulosos. Os pratos e os temperos servidos recentemente tornaram-se indigestos. E os efeitos já podem ser sentidos em toda a capital federal. Nem ouso falar do sabor até porque o odor já está insuportável.
A origem seria a decisão do ministro André Mendonça do STF de pedir ao presidente da Corte Suprema Edson Fachin levar ao plenário o relatório que envolve Alexandre de Moraes e o PGR Paulo Gonet com o Banco Master. E de quebra, o diretor da PF Andrei Rodrigues.
Mensagens tornadas públicas nesta terça-feira por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), indicam que o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, era orientado por Alexandre de Moraes durante o auge da crise na instituição, no fim do ano passado. Em uma delas, Vorcaro perguntou a Moraes se tinha que deixar o país. O texto, em posse da Polícia Federal (PF), foi enviado em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de Vorcaro ser preso pela primeira vez diante das suspeitas de fraudes.
Vorcaro também pediu ajuda a Moraes para intervir junto ao diretor-geral da PF e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, na tentativa de interromper as investigações que miravam o Master. O jornal Estadão foi quem deu o furo. Mendonça, relator do caso no STF, derrubou o sigilo do caso posteriormente e indicou que o assunto será levado ao plenário. Caberá ao presidente do STF, Edson Fachin, marcar a data de sessão para deliberar sobre eventual investigação contra Moraes. Como é integrante do STF, Moraes só pode ser formalmente investigado se houver o aval do plenário. Segundo Mendonça, caberá à “instância soberana” analisar a situação em deliberação “pública e transparente””.
Apareceu então, em primeira mão, por exemplo, mensagem enviada por Vorcaro em novembro, na qual o banqueiro preso pergunta a Xandão: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, em mensagem recuperada pela Polícia Federal. As respostas de Moraes não foram reveladas. Na sequência, no mesmo dia, Vorcaro emenda três perguntas. “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”. As referências são ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, instituição que fechava o cerco às irregularidades do Master, e ao juiz Ricardo Leite, juiz da 10ª Vara Federal de Brasília, onde tramitava na época o inquérito sigiloso que levou banqueiro à cadeia. Em outro momento, Vorcaro diz: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo”; “Conseguimos fazer algo?
No dia seguinte, 16 de novembro, Vorcaro voltou a consultar Moraes. “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”. Na noite do dia 17, Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando tentava sair do Brasil em um jato particular que voaria para Dubai. Até agora não se sabe se estava fugindo ou a negócio. Pouco antes da prisão, Vorcaro disse ao ministro: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Essa mensagem foi revelada em março pela colunista do GLOBO Malu Gaspar.
As mensagens foram extraídas do celular de Vorcaro, mas as respostas do ministro não puderam ser recuperadas pelos investigadores. As mensagens eram trocadas por meio de textos escritos no bloco de nota do celular e enviadas por WhatsApp como imagens de visualização única.
PF e PGR
No dia 30 de outubro, Vorcaro diz a Moraes que ia alterar a data de uma viagem na tentativa de encontrá-lo. O banqueiro relata ter recebido informações de maneira “informal” que Galípolo estava recebendo pressão para adotar uma medida contra o Master. Vorcaro pede ajuda com “Andrei e Paulo” (diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. “O Bacen está sendo muito pressionado pela PF e MP, alegando que farão algo contra mim. É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem, que aí vai tudo pro saco. Estou disponível para tratar e explicar qualquer coisa, só não pode ter sacanagem”, diz a mensagem enviada por Vorcaro.
A advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Moraes, afirmou que o marido foi consultado sobre o contrato assinado entre o seu escritório e Vorcaro, do Master, que previa o pagamento de R$ 131 milhões em três anos. Em nota, confirmou que “solicitou informações” por meio da área de compliance do seu escritório a Moraes sobre “eventuais impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual”.
O advogado Ciro Soares enviou foto ao lado do procurador-geral da República, Paulo Gonet, segundos antes de intermediar uma ligação telefônica entre ele e o banqueiro Daniel Vorcaro
Metadados do arquivo do contrato, enviado por WhatsApp a Vorcaro, mostram que o documento foi editado por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. A informação foi revelada inicialmente pelo Estadão. Segundo afirma Viviane, porém, o contrato só foi assinado depois que se comprovou a “inexistência” de “qualquer impedimento legal” por ela ser esposa do ministro do Supremo. “Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”, diz o texto.
Em outras mensagens interceptadas pela PF, de 15 de março de 2024, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria fala a um subordinado de Vorcaro sobre um atraso de pagamento referente ao contrato. “O careca não pode atrasar”, disse Faria a Angelo Silva, que foi sócio do Master.
Andrei Rodrigues, diretor da Polícia Federal
O próprio banqueiro também foi alertado por Faria sobre a demora na transferência. Vorcaro, então, demonstrou enorme irritação com a demora no pagamento para o escritório Viviane, e ordena a Angelo Silva: “Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não tô entendendo isso. Contrato mais importante que temos. Te pedi para não falhar. Surreal. Vamos ter problemas” e, às 15h06, ordena: “Manda pagar agora”.
“Estamos juntos sempre”
Outras mensagens obtidas pela PF, em 14 de novembro, três dias antes de ser detido, Vorcaro escreveu ao ministro: “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo e com a sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser”.
O circo pegou fogo
O resumo acima contém apenas alguns detalhes do que a PF já recuperou dos celulares de Daniel Vorcaro. Xandão continua em silêncio. Andrei, diretor da Polícia Federal estaria expelindo fogo pelos olhos provocado pelo ódio ao André Mendonça. Foi o ministro do STF, relator do processo que resultou no relatório tornado público, quem derrubou o sigilo que o cercava e impedia que os palhaços gargalhassem junto com o público.
A resposta só saberemos com o que sobrar no mês de outubro.




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