Erling Braut Haaland, norueguês nascido no Reino Unido. centroavante no Manchester City e na Seleção Norueguesa

O brasileiro possui muitas especialidades natas: é pós-graduado em fila de banco, doutor em previsão do tempo e mestre em achar vaga de estacionamento. Mas nenhuma dessas credenciais chega perto do seu título mais nobre e universal: o de Técnico da Seleção Brasileira de Futebol. Quando a Copa do Mundo se aproxima, o país padece de uma síndrome antropológica assustadora. De repente, duzentos milhões de psicólogos sociais, economistas e historiadores guardam seus diplomas na gaveta para assumir a única função que realmente exige rigor analítico neste território: a formulação da Opinião Pública sobre a Copa.

A Opinião Pública, essa entidade misteriosa que os institutos de pesquisa tentam enquadrar em gráficos, funciona como um relógio próprio. Faltando seis meses para o torneio de 2030, olhando para o passado: “Este ano não passamos da primeira fase”. O cidadão comum, tomando seu cafezinho na padaria, vira um poço de ceticismo. Critica a convocação, amaldiçoa o esquema tático do treinador e jura, de pés juntos, que o lateral-direito titular não conseguiria acertar um passe nem se a bola estivesse amarrada na sua chuteira. É o império do “eu já sabia que ia dar errado”, uma espécie de mecanismo de defesa para evitar frustrações.

 Muita fé e esperança

Mas o que mais impressiona nesse comportamento é a fragilidade do nosso luto pela perda. Juramos ódio eterno após cada eliminação humilhante. Decretamos que o futebol brasileiro morreu, rasgamos camisas e prometemos ignorar o torneio centenário transcontinental. Porém, nossa dor é superficial, um luto de areia que desmancha na primeira onda de propaganda. Somos incapazes de sustentar a melancolia da derrota; nossa memória é curta e conveniada ao autoengano.

Basta a primeira bandeirinha verde e amarela ser estendida, o comércio da esquina vender cornetas plásticas e padecemos o início da catarse coletiva. O mesmo sujeito que, na semana anterior, chamava o meio-campo de “bando de pernas de pau”, acorda numa terça-feira olhando o álbum virtual e decreta: “Se o ponta-esquerda jogar aberto, fechando a diagonal com o centroavante, o Hexa é nosso. Não tem para ninguém”.

Alegria contagiante nas vitórias

O fenômeno é contagiante. A Opinião Pública abandona o realismo trágico e abraça o delírio ufanista sem escalas. Nos dias de jogo, a produtividade nacional atinge níveis poéticos de quase zero. O país fecha. A bolsa de valores bem que tenta funcionar, mas os operadores estão mais preocupados com o índice de recuperação do tornozelo do craque do que com a taxa de juros.

O mais divertido é observar a reação da massa ao longo dos noventa minutos. Se o Brasil toma um gol aos cinco do primeiro tempo, a Opinião Pública racha em duas subcategorias científicas: os “Eu Avisei”, que cruzam os braços com um sorriso de superioridade intelectual, e os “Corações Valentes”, que começam a sugerir alterações táticas aos berros para a tela da televisão, crentes de que o treinador, a milhares de quilômetros de distância, vai captar a mensagem por telepatia.

O sabor amargo da derrota

Quando o juiz apita o final e a vitória se confirma, a metamorfose se completa. A crítica feroz de ontem vira a idolatria cega de hoje. O lateral contestado agora merece estátua em praça pública. A verdade é que a Opinião Pública sobre a Copa é o único espaço onde a contradição não é um defeito, mas uma virtude institucional. Mudamos de ideia com a mesma velocidade com que o vento muda a direção da bola. E se alguém ousar apontar nossa incoerência, a resposta padrão já está na ponta da língua: no fundo, a gente só queria uma desculpa para ser feliz, gritar abraçado com desconhecidos e fingir, por algumas semanas, que o mundo inteiro cabe dentro de uma bola de futebol.