Resenho um livro recentemente lido por mim “Minha Gente – Memórias” (Letra Selvagem, 2025) de autoria do dr. José Paulo Pereira), em que achei muita riqueza de informações sobre o caipira
Verdadeiras iluminações caipiras.
Paulo Pereira, nascido em Redenção da Serra, no ano de 1941, destinado a frade de sandálias, filho de sitiante e trabalhador de “mangueira de leite”, cuidando de vacas. Aconselhado pelo “primo Nenê” foi morar com a “tia e estudar”. Cursou o Ginásio Taubateano e o Colégio Monteiro Lobato (o famoso Estadão), depois seguindo ao Rio de Janeiro a fim de cursar medicina.
Assistiu e testemunhou em parte vários acontecimentos policiais ocorridos no Rio de 1961 a 1970, período sangrento e ilícito da política, arquitetado pelo governo dos Estados Unidos. No Exército, para onde fora convocado, serviu na Fortaleza de Santa Cruz, aí conhecendo presidiários famosos como o Professor Bayard Demaria Boiteux e o Professor Darcy Ribeiro, no momento em que a maioria progressista da intelectualidade brasileira se encontrava presa pelos militares.
Formado em medicina, deu plantão em Prontos Socorros e Hospitais da Região, colaborando na Faculdade de Medicina de Taubaté, criando Departamento de Saúde e tornando-se funcionário público.
Esta resenha não pretende abranger o conteúdo inteiro da obra, limitando-se tão somente ao 1º Capítulo (“Memórias”), mostrando sua presença na vida caipira e sua transição do caipira ao meio urbano de Taubaté e ao urbano do Rio de Janeiro.
Além do noticiado no “Almanaque Taubaté”, no n. 4, intitulado “Caipira Sim Senhor”, há mais elementos desta cultura conforme se vê na preservada cidade de São Luiz do Paraitinga. No “Almanaque Taubaté”, citado, “o caipira recorre a plantas medicinais, emplastos, crendices e até rezas” durante as doenças causadoras de morte; e ainda a alimentação; os tabus (misturas); o uso do tabaco, a música sertaneja e assim por diante.
O caipira paulista é o homem das tropas, percorrendo os campos de dezenas de léguas a pé ou arcado sobre o burro. Nascem fora da cidade, criados na natureza, lidam entre si mais pelo coração que pela razão, embora tímidos e desconfiados. O que define o caipira em geral é a forma criada pelos seus meios de subsistência, não apenas pela forma de reprodução da forma física que indica ainda a forma de viver.
Sua linguagem o mostra integralmente, com palavras como alimá; amôde; arma-penada; as coisa-feito; banzé; caguira; caipóra; nome-feio; patuá; pé de moleque; pé d´ouvido; que-nem, e inúmeros outros vocábulos. Ao comer, não podem faltar açúcar; toicinho; carne de porco; feijão; milho, farinha… em geral criam e cultivam gêneros alimentícios. O culto dos santos, obedecendo a dogma ou não, contribui essencialmente à unidade religiosa e associam-se a práticas domésticas (doces, salgados, pratos feitos) tanto nos grupos quanto nas cidades.
Ora, o “Minha Gente” ilustra a plêiade, dentre outros, dos estudiosos de assunto como, por exemplo, Antônio Cândido, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Nice Lecoq Müller e Cornélio Pires.
No livro “Minha Gente”, indica-se parte da crença caipira:
“A moça bondosa e pura faleceu muito cedo. Crendices disseram que ela já se purificara para viver no paraíso e, por isso, partiu ainda muito jovem”.
Ou: “Há muita gente voltando para a roça por não suportar mais os coisas ruins da cidade. Há muita gente entendendo que morar num sítio é mais confortável”.
Ou: “É o progresso. Mas também já dissabores. Não se encontra mais um amigo para conversar. Não se tem mais tempos para nada”.
Ou ainda: “As pessoas achavam estranho uma casa de pau-a-pique, sem forro, sem ladrilho, com fogão de lenha e as paredes negras com a fuligem de fumaça. Tomava banho de bacia e pegava água na mina…”
Amizade de caipira é amizade de sempre no livro: Galhardo, Romano, Israel, Walter, Rivaldo, Monteiro, Nilzo, Maria Letícia, Olímpia, Ivonete…
O caipira paulista, a princípio nômade e predatório, desenvolve vida ecológica, cria um tipo de sociabilidade específica, edifica a indústria caseira e seus utensílios.
Tudo isso está, ao menos, presente e sugerido no livro de memórias de Paulo Pereira, a ser melhor conhecido.


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