Será que nossos indígenas montaram uma mesa para recepcionar os portugueses que os “descobriram”?

De uns tempos para cá, descobriu-se com grande alarde dramático que o Brasil está “polarizado”. Os analistas de televisão ajeitam a gravata, olham para a câmera com um ar de profunda gravidade e decretam: “Nunca antes na história deste país o povo esteve tão dividido”. É uma comoção nacional. Fala-se da polarização como se ela fosse um vírus alienígena que desembarcou aqui na semana passada, estragando o nosso histórico de nação pacífica, amorosa e perfeitamente homogênea. Pois eu vos digo com a tranquilidade de quem já viu esse filme muitas vezes: que bobagem solene!

O brasileiro não ficou polarizado ontem à tarde porque baixou o aplicativo do WhatsApp. Nós nascemos polarizados, fomos criados na discórdia e aperfeiçoamos a arte de odiar o vizinho por motivos fúteis muito antes da invenção da internet. Dizer que o Brasil se dividiu agora é uma profunda injustiça com a nossa gloriosa tradição de picuinhas históricas.

Zico ou Pelé? Depende…

Desde a época das caravelas, o nosso esporte nacional é a divisão. Ou você acha que os indígenas e os portugueses sentaram numa roda de capoeira para tomar água de coco? Quando o futebol chegou por aqui, dividimos o país de forma irreconciliável: de um lado os que acham o Zico um deus, do outro os que acham que Pelé é único, e no meio o pessoal do interior que prefere brigas de galo.

Nós polarizamos absolutamente tudo! Na culinária, existe uma guerra civil não declarada entre quem coloca uva-passa no salpicão de Natal e os cidadãos de bem que consideram a fruta seca um crime contra a humanidade. No café da manhã, a nação se rasga entre o biscoito de polvilho e a bolacha de água e sal. Se você vai à praia, a divisão continua: o lado dos que querem ouvir pagode no alto-falante e o lado dos que querem jogar o alto-falante do vizinho no mar.

A verdade é que a tal “polarização” não é uma crise; é a nossa identidade cultural. O brasileiro precisa de um rival para funcionar. Sem um outro lado para culpar pelo trânsito, pela inflação ou pelo temporal de terça-feira, a gente se sente perdido, sem rumo, como um torcedor sem time no domingo à tarde.

E quer saber? Que viva a polarização e viva a democracia! A graça de viver numa democracia de verdade é justamente essa: a liberdade sagrada de poder achar que o sujeito da mesa ao lado é um completo tonto por votar em quem vota, enquanto ele pensa exatamente a mesma coisa sobre você. Numa ditadura, todo mundo concorda com a cabeça, sorri amarelo e aplaude o mesmo tirano. Na democracia, a gente tem o direito inalienável de bater boca no grupo da família, sair do grupo indignado, ser adicionado de volta pela avó na semana seguinte e fingir que nada aconteceu.

É preferível ficar calado ou…

Portanto, esqueça essa conversinha fiada de que precisamos “unir o país”. Unir o país para quê? Para todo mundo gostar da mesma novela, torcer pelo mesmo time e concordar com o preço da gasolina? Que tédio mortal! Que continue a guerra dos dois lados! Que os da esquerda continuem achando que os da direita são extraterrestres sem coração, e que os da direita continuem convictos de que os da esquerda querem proibir o churrasco de domingo. No final do dia, quando a urna fecha e a apuração acaba, os dois lados se encontram no mesmo boteco, pedem a mesma cerveja estúpida de gelada e concordam numa única coisa: o garçom está demorando demais para trazer a porção de mandioca frita. E é isso, meus amigos, que mantém este país de pé.