A segunda-feira pós-eleição amanheceu com cara de quarta-feira de cinzas, só que sem o samba, sem a fantasia e sem nenhuma lembrança boa da festa. A cabeça lateja, a boca parece uma lixa e a alma carrega aquele arrependimento difuso de quem falou mais do que devia no almoço de família. Mas o brasileiro, este ser heroico que definitivamente não é para amadores, consulta o calendário e descobre a verdadeira crueldade do sistema: a farra não acabou. Foi só uma pausa tática para a ressaca, porque ainda restam três longas semanas até o segundo turno.
A cidade acorda coberta por uma poeira moral. As calçadas estão soterradas de santinhos que ninguém pediu, os jingles seguem grudados no cérebro como chiclete no asfalto quente e os grupos de WhatsApp viraram campos minados de guerra psicológica. Quem passou em primeiro já desfila como se guardasse a faixa no armário; quem se classificou raspando cata os cacos jurando que “agora é outra eleição”; e o cidadão comum tenta, em vão, lembrar de quando nem tudo se dividia entre a salvação da pátria e o apocalipse.
O quadro clínico é refinado. Meses de pesquisas contraditórias, debates aos gritos e panfletagem digital desaguaram numa azia institucional coletiva. A gente alimentava a ingênua esperança de que, no domingo à noite, a conta estaria paga e poderíamos voltar aos grandes temas da civilização: o preço do chuchu, a escalação da Seleção, a previsão do tempo. Que nada. A sobremesa do banquete partidário é mais um prato fundo de neurose.
Nesses vinte e um dias de prorrogação, o país entra num delírio coletivo. A conversa no táxi, na fila do pão e no botequim ganha a gravidade de uma sessão do Conselho de Segurança da ONU. Amizades que sobreviveram por um fio ao primeiro turno firmam um pacto desesperado de não agressão para não azedar o churrasco de domingo. É a diplomacia do olhar esquivo: ninguém toca no assunto para que ninguém precise arremessar a lata de cerveja.
O segundo turno é a saideira que o garçom traz sem ninguém pedir, e ainda cobra os dez por cento. Mas a gente já sobreviveu a coisa pior: ao sete a um, à bandeira vermelha na conta de luz e ao tio que manda áudio de oito minutos às seis da manhã. Respiramos fundo, tomamos dois analgésicos, silenciamos o grupo da família até novembro e seguimos. Porque, ganhe quem ganhar, uma coisa é certa: o único candidato com reeleição garantida neste país continua sendo o boleto.

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