Sou como aquele cachorro de dois donos. Você já reparou como ele vive? Come ração numa casa, dorme na varanda da outra, atende por “Jojô” aqui e “Bob” ali, abana o rabo pros dois sem o menor peso na consciência. Pois é. Esse cachorro sou eu, só trocando ração por camisa de time.

Torço por dois times, e isso não é falta de caráter — é gestão eficiente de lealdade, como o cachorro que distribui afeto pra nunca ficar sem acolhimento em dia de jogo importante. O primeiro time é o do meu estado de origem, aquele que veio com o berço e o sobrenome, que o pai me ensinou a xingar o juiz antes de eu saber ler. Amo como se ama família: incondicionalmente.

O segundo é o time daqui, de onde vim morar. Comecei torcendo por sobrevivência social — ninguém aguenta ficar de fora da conversa na feira, na farmácia, no boteco — e hoje, Deus me perdoe, às vezes torço mais por ele. É a mesma lógica do cachorro: a casa que te alimenta todo dia acaba ganhando um espaço que a casa de origem não preenche mais sozinha.

E aqui recorro às Escrituras pra justificar minha promiscuidade esportiva. João 14:2: “na casa de meu Pai há muitas moradas.” Se no Reino dos Céus cabe todo mundo sem confusão de escala, por que no meu peito não caberia dois escudos? Não sou infiel, sou bíblico. Só troquei “mansão celestial” por “camisa oficial com o nome errado nas costas”.

“na casa de meu Pai há muitas moradas”

Tem outra comparação que também me define bem: sou feito aquelas pessoas que leem dois livros ao mesmo tempo — um na cabeceira da cama, outro nas horas vagas — e precisam de uma disciplina mental quase olímpica pra não misturar os enredos. Não pode, num momento de distração, achar que o personagem do primeiro livro traiu a esposa quando na verdade foi o do segundo que morreu no final. É exatamente assim que vivo torcendo por dois times: preciso lembrar qual escalação joga contra quem, qual rival é inimigo mortal de qual clube, e jamais comemorar o gol errado na roda errada de amigos. Um deslize desses e você vira piada nos dois grupos de WhatsApp ao mesmo tempo.

O problema mesmo é quando os dois times se enfrentam — ou, nos livros, quando por algum motivo os dois enredos parecem convergir e você jura que aquilo é hipertexto proposital. No futebol não tem crossover: é clássico, é decisão, é eu sozinho na sala com as duas camisas dobradas no armário, porque vestir as duas seria confessar publicamente que sou um vira-lata caramelo emocional. Torço pra dar empate. Sempre. Empate é minha coleira de segurança, meu marcador de página que não escolhe capítulo.

Em jogo da seleção não tem conflito

Os torcedores dos dois lados me tratam com a desconfiança educada reservada a quem “não tem time de verdade” — como quem descobre que você larga um livro na cena mais tensa pra abrir o outro sem culpa nenhuma. Discordo: sou torcedor completo dos dois, o que significa o dobro de sofrimento e o dobro de pressão alta no fim de semana.

No fim das contas, sigo os dois, xingo os dois técnicos, compro as duas camisas fora de temporada e continuo essa vida dupla que nenhum psicólogo saberia diagnosticar, nenhum veterinário também, e nem o padre da minha igreja, que já desconfia que uso a Bíblia pra justificar time de futebol.

Time único é coisa de quem tem certeza na vida, e de enredo único também. Eu tenho duas certezas: que os dois times vão me decepcionar na hora decisiva, e que eu vou continuar ali, abanando o rabo pros dois patrões, marcando a página certa no capítulo errado — e me corrigindo bem a tempo de gritar o gol certo.