TS Eliot garantiu que abril é o mês mais cruel do calendário. Com todo o respeito ao poeta norte americano, ele nunca enfrentou um outubro brasileiro. Abril ainda tem fôlego de começo. Outubro pesa nas costas como mala na volta de viagem, cheia de coisas que não foram usadas.

Descobri essa doença sem ajuda médica, pois bastou alhar para meus pares de jornada. Chamei-a outubrite inspirado em renite, apendicite, diverticulite e outros ites inflamatórios. Os sintomas são conhecidos de todos, embora ninguém os confesse: acorda-se cansado do que nem se fez ainda, e a lista de pendências cresce durante a noite, como massa de pão. O sujeito abre a gaveta, encontra as anotações de janeiro, aquela listinha em que jurou ler os clássicos, aprender javanês e caminhar meia hora por dia, não falar mal dos vizinhos e suportar melhor os companheiros da academia. Lê tudinho e constata que o único texto realmente lido com atenção foi a bula do relaxante muscular.

T.S. Eliot nunca teria enfrentado um outubro brasileiro

O mais traiçoeiro é que outubro não é o fim. Dezembro tem a dignidade das despedidas e a desculpa oficial de deixar tudo para o ano que vem. Outubro é o momento estranho em que as pessoas sentem vontade de ir ao banheiro, mas é chato se levantar da cadeira do cinema antes do final do filme.

A cada dois anos, a outubrite ganha, ainda mais uma complicação clínica: a eleição. Os grupos de família viraram trincheiras, e o almoço de domingo, quando não são evitados, viram assembleia com direito a réplica, tréplica e cunhado da irmã que se retira antes da sobremesa. E, espera-se em Deus, deusa, orixás e encantados que desta vez o calendário eleitoral não ofereça urna em dose dupla.

Como se não bastasse, o Supremo resolveu entrar em crise justamente agora, feito o amigo que escolhe o dia de meu aniversário anunciar o divórcio ou falência. Fomos educados na crença de que o tribunal dava a última palavra. Descobrimos agora, porém, que há várias instâncias, e que cada ministro guarda a sua. Um decide, outro desfaz, um terceiro reclama por ofício, e a Justiça Eleitoral, que deveria apitar o jogo, descobre outro juiz em campo, com outro apito. Antigamente, o brasileiro sabia de cor os onze titulares da Seleção e ignorava os ministros do Supremo. Hoje, qualquer um na fila da padaria discute competência do tribunal com intimidade de magistrado. Eu bem que tentei acompanhar. Dormi certa noite convencido de ter entendido o imbróglio do Banco Master e acordei com uma decisão nova revogando justamente a parte que eu havia compreendido.

No fundo, desconfio que a outubrite não seja apenas uma doença, mas uma epidemia: basta olhar para as pessoas. O cansaço de outubro é a prova de que o ano foi vivido, com seus tropeços, suas perdas e até pode ter dado cena à pequenas vitórias que ninguém aplaudiu. Mas uma coisa é certa: se alguém chega a outubro descansado, leve, livre e solto, com garantia não deve ter saído de casa. Ou, neste ano, não tenha sequer ligado a televisão.

Pois é, o mês mal começou e já suspiro por novembro, por dezembro e quiçá para que o próximo outubro tenha se curado e venha firme, forte e mais divertido.