Pois é!…
Depois que publiquei na semana passada minha crônica acusando o “quase” de ser o grande procrastinador da existência, uma pequena chuva de leitores se investiu de críticos e salgou o prato que pretendia ser leve. Uma mais apressadinha logo decretou: “Eu amo o quase”. Outro se limitou ao título “Quase a pior palavra do dicionário” e mandou um “Como assim?”, como quem dá corda para me enforcar. E não faltaram os que contavam casos — porque tem gente que só quer uma desculpa para contar a história em que quase morreu, de preferência com aumento de 83% na dose de perigo a cada nova versão.
A primeira veio de uma amiga que foi acampar quando o céu resolveu ensaiar um apocalipse: chuva, vento, trovões e a barraca chacoalhando como folha seca. No silêncio tenso que seguiu um estrondo, ela se encheu de coragem e saiu para recolher coisas espalhadas pelo vento. Um segundo depois, um raio — com a precisão de um cirurgião — caiu exatamente onde ela tinha estado. O “quase” ali foi um recuo de dois segundos que impediu a garota de virar carvão.
O outro relato foi de um passageiro cronicamente distraído que, inadvertidamente, errou o aeroporto. Perdeu o voo, praguejou contra a humanidade, esbravejou no guichê da companhia e voltou ruminando para casa, decidido a nunca mais deixar isso acontecer. Horas depois, ligou a TV e descobriu que o avião em que deveria estar fizera um pouso forçado no meio do nada. A desorientação, dessa vez, tinha vindo com seguro de vida embutido.
Teve quem lembrasse do caso de um cirurgião renomado, conhecido por um ego que mal cabia no centro cirúrgico, prestes a cortar uma artéria saudável devido a um diagnóstico apressado. No milissegundo decisivo, a instrumentista teve um acesso de tosse. O espasmo fez o médico recuar o bisturi em dois milímetros. Ele praguejou, espumou, maldisse — porque gênios, ao que parece, não toleram interrupção — e, ao olhar de novo para o corte, percebeu a anomalia anatômica que teria matado o sujeito na mesa. O paciente sobreviveu com saúde perfeita e pagou uma fortuna pela consulta; a instrumentista, claro, só ganhou uma bronca pelo pigarro providencial.
E se o assaltante não fosse trapalhão?
E teve o caso de um assaltante trapalhão que abordou um motorista no sinal vermelho e exigiu o carro. O motorista, tomado pelo pânico, engatou a ré e prensou a própria traseira num poste, acionando o alarme e travando as portas automáticas. O assaltante, assustado com o escândalo e a chegada súbita de uma viatura, saiu correndo e tropeçou no próprio cadarço. O “quase assalto” virou comédia pastelão: o motorista acionou o seguro, o ladrão foi preso por falta de amarração adequada, e o poste — vítima colateral e muda de toda a história — nunca recebeu um pedido de desculpas.
Tive que me render. O “quase” não deixa de ser uma fatalidade, mas quem disse que não existem boas fatalidades? A sabedoria popular gosta de consolar os frustrados com o clichê do copo meio cheio ou meio vazio.
Rendamo-nos, pois, à ironia do acaso. No fim, a distância entre o funeral e a gargalhada é só um segundo, um espirro, um mapa errado ou um cadarço desamarrado — o que prova que a morte, além de inevitável, também é uma péssima administradora de agenda. Dou o braço a torcer aos meus leitores: retiro todas as acusações e me curvo às evidências de que o “quase” é, disparada, a melhor palavra do dicionário. Afinal, é a única que tem o topete de quase nos matar e, no minuto seguinte, cobrar aplausos por isso.

No Comment