A menina que vendia picolé na rua de Honório Gurgel, subúrbio carioca onde o trem passa lotado e o sonho costuma descer na estação errada, Anitta não esperou ser descoberta: se impôs. Foto de sua chegada a Los Angeles

O Brasil entra campo carregando um dilema existencial: somos ainda o país do futebol ou apenas o país da saudade do futebol? Há mais de vinte anos a camisa amarela vai às Copas como quem visita um museu de si mesma. Joga apegada ao retrato de 1970, à memória de Pelé e Garrincha, ao “futebol-arte” que o mundo aplaudia, mas, no fim volta para casa sem a taça, sem resposta, sonhando com o tal hexa. Viramos uma lembrança bonita que não vence e nem convence.

Tão grande é o impasse que fomos buscar um técnico italiano, Carlo Ancelotti, para reger a orquestra verde-amarela: um estrangeiro no comando da Seleção, logo nós, os inventores da ginga! Mas talvez o gesto diga algo mais profundo: o velho modelo se esgotou, e admitir isso é o primeiro passo para renová-lo. A pergunta é se vamos renascer de fato ou apenas trocar o maestro mantendo a mesma partitura amarelada. E é aqui que a música brasileira, que sempre andou de mãos dadas com o futebol, oferece uma lição.

Tom e Vinicius, isto é bossa nova, isto é muito natural…

Em uma ponta, a Garota de Ipanema. Tom e Vinicius exportaram ao mundo uma musa de passada mansa: linda, distante, inalcançável, sem notar os suspiros que deixava na calçada. Era a sedução do mistério, do país que posava bonito, mas que desaparecia na esquina. Funcionou por seis décadas. Mas era, convenhamos, uma beleza passiva, admirada de longe, como o nosso futebol de antigamente: contemplado, aplaudido e, ultimamente, derrotado.

Na outra ponta, a garota de Honório Gurgel, subúrbio carioca onde o trem passa lotado e o sonho costuma descer na estação errada. Anitta, a menina que vendia picolé na rua, não esperou ser descoberta: se impôs. Não passa, se apresenta. Não é olhada, olha de volta e ainda pergunta, marota, se você vem ou vai ficar aí parado. Prova? Ela num estádio da Califórnia, figurando na abertura da partida entre os Estados Unidos e o Paraguai, ao lado de estrelas internacionais, levando o funk, o samba e o tambor brasileiro para o palco principal do planeta. Trocamos a musa que inspira poemas pela empresária que assina contratos; o violão pelo tamborzão da periferia; o balanço pelo rebolado atrevido.

A tailandesa Lisa, a brasileira Anitta e o nigeriano Rema apresentaram a dançante “Goals”

E não para aí. Em abril, quando todos esperavam mais um disco de funk, lançou “Equilibrivm”, assim mesmo, com V no lugar do U, à moda latina. Dentro: samba, axé, ijexá, reggae e batidas inspiradas no candomblé. Mistura o ancestral com o moderno, o orixá com a tecnologia, e o mundo inteiro dança. Pois bem: a analogia se sustenta? Creio que sim, e ela é incômoda. A Garota de Ipanema é o nosso futebol antigo, uma beleza que vive de ser lembrada. Anitta é o que a Seleção precisa se tornar: um Brasil que não espera o aplauso, que conquista; que não repete a fórmula consagrada, que reinventa; que mistura a ginga de berço com o que o mundo tem de mais moderno. Se ela pode casar o tambor do subúrbio com a indústria internacional sem perder a alma, por que o nosso futebol não pode casar a malandria brasileira com a organização tática de um italiano sem deixar de ser brasileiro?

Talvez Ancelotti seja, no fundo, o produtor estrangeiro da nossa gravadora: não veio apagar o ritmo, veio ajudar a gravá-lo direito. O risco não está em ter um maestro de fora. O risco está em continuar cantando, em pleno 2026, a mesma canção de 1970: bonita, nostálgica e muda diante de um jogo que mudou.

Pois bem, em Los Angeles, ninguém suspirou da mesa do bar como se suspirava pela moça que ia ao mar. Dançou-se, conforme o rebolado da Anitta, naturalmente. Parece que os onze de amarelo aprendam a coreografia: o país que um dia foi só poesia agora é funk e axé. A Garota de Ipanema era linda, mas passiva. A de Honório Gurgel é barulhenta, incômoda e ousada. Se a Seleção continuar entrando em campo como a segunda, e não como a primeira, o mundo levará a lição antes mesmo do apito inicial. E aí, sim, ninguém vai pedir bis. Vai mandar.