O enredo celebrativo do mês de abril é tão amplo e variado que abriga contradições irônicas. Nem é preciso começar pelo primeiro de abril, Dia da Mentira. O ponto de inflexão se dá na proximidade do Dia do Indígena, 19 de abril, em relação ao 22 de abril, quando se comemora a chegada dos europeus, portugueses, ao nosso solo. A complicar o paradoxo da combinação, entre um e outro, temos o 21 Dia de Tiradentes, dia dedicado ao herói precursor da Independência. Basta elencar tais referências para ficar implícita a evocação de Stanislau Ponte Preta no “samba do crioulo doido”. Bobagens a parte, o contraditório está criado e agendado oficialmente.

Para felicidade geral da nação, estamos em um ponto da crítica histórica em que fatos, conceitos, teorias, são revisitados, promovendo interpretações necessárias. Lembro-me, garoto ainda, aluno de grupo escolar quando os professores ensinavam sobre uma “casualidade” no “Descobrimento” e que os “nativos” receberam bem os portugueses – e isto era ilustrado com o quadro “A primeira missa” de Victor Meirelles. E dizia-se que os invasores vinham nos “civilizar pelo cristianismo”. Então, os “povos nativos” eram “convidados à conversão” integrando o vasto Império português. Porque “eram preguiçosos” e não se adaptavam devidamente ao trabalho, os “selvagens” foram substituídos pelos negros africanos, motivando o formidável comércio escravagista. E assim caminhavam as lições escolares…

Rios de tinta correram até que se mudassem tais pressuposições eurocêntricas, formatadoras de uma sociedade hierarquizada e de submissões. O filtro historiográfico foi reparando olhares enviesados e, aos poucos, iam-se somando pesquisas plurais, acionadoras de reversões que começam a produzir efeitos. Ainda há muito a andar, muito, mas já se vislumbram questões que exigem reposicionamentos próximos dos direitos humanos e ações capazes de motivar políticas públicas adequadas à nossa realidade. Por lógico, a arena democrática reivindicatória está aberta a quantos buscam seu lugar social.

Em termos de movimentos emancipacionista, no cenário atual, os negros estão a frente, conseguindo se impor e galgando conquistas justas, capazes de requalificar a dignidade que merecem como povos transplantados à força. A par desse contingente que perfaz 54% da nossa população, outro segmento se alinha, os primeiros habitantes que agora conseguiram um Ministério dos Povos Indígenas e cresce na correção de postulados favoráveis ao reconhecimento desse grupo como um todo. Não se pode dizer que a inquietação frente aos povos indígenas é nova. Já em 1943, em plena vigência do Estado Novo, o visionário Marechal Rondon levou avante uma reivindicação plantada no México em 1940 quando o Congresso Indigenista Interamericano, motivou criar em toda a América um dia especialmente dedicado a esses grupos. De início, falava-se em “Dia do Índio”, termo que causava constrangimento, pois continha uma carga de preconceitos que transpareciam no julgamento tradicional de “povos primitivos”, “selvagens” e incompatíveis com a “civilização”. Para combater tais interpretações, buscou-se primeiro trocá-la por “indígena” valorizando uma cultura autônoma, condição conseguida em 2022.

 

Quantos indígenas temos?

Interessa demonstrar que junto com avanços, em ordem progressivamente reversa, os ataques têm proposto consequências dramáticas, algumas indicando catástrofes genocidas. A começar pelos números, são postas questões gravíssimas como a indefinição dos totais: quantos indígenas temos; quais as características culturais de cada grupo; como preservar suas línguas; quais as estratégias de contato com os grupos reclusos; que tratamento deve ser aplicado aos indígenas urbanos; e como proceder com cotas estudantis e, mais que tudo, como aprender que eles são agentes da própria vida?

Síntese de toda aflição que vivemos, os recentes problemas dos Yanomami projetam um quadro desafiador e exigente de explicações e muitos debates públicos. Sem lembrar, por exemplo, que são os indígenas que mantém a floresta viva, que são eles que sabem lidar com a mata, por ignorância, determinados setores reclamam do tamanho das reservas projetando situações apenas cabíveis na lógica do lucro imediato, sem noção do significado da importância da Amazônia no conjunto global. E no Norte do país temos cerca de 250 mil indígenas carentes de atenção efetiva e continuada.

E convém falar de números posto abrir pistas para se pensar em programas especiais, atentos a definição de nossa requalificação como brasileiros. Os dados de 2010 – o último censo – arrolam cerca de 900 mil indígenas divididos em cerca de 300 unidades ou povos. Com um patrimônio cultural de mais de 220 línguas vivas, temos uma carga de responsabilidade a exigir envolvimento de todos, não apenas de políticos e especialistas.

É exatamente neste quesito que atua a absoluta e irrestrita necessidade do protagonismo indígena. Não é “sobre eles”, é “com eles” que temos que agir. Neste sentido, fico imaginando a beleza que seria criar uma universidade indígena, uma instituição capaz de extrair do vitimismo usual culturas que têm a vivacidade do vínculo com a terra. Uma instituição deste calibre honraria uma causa digna da condição humana. Estudemos o caso.