Que a língua é viva todos sabem: esperta, oportunista, ela vai se mexendo em mutações, algumas intrincadas, outras misteriosas. Por anos, autores como Marcos Bagno têm insistido na dinâmica dessas estruturas, mostrado condicionamentos gerais, adaptações,  subterfúgios. José Luiz Fiorin, linguista atento às matrizes modernas, salienta que, frente ao inglês, francês e espanhol, o português se posiciona como uma das línguas mais exuberantes e democráticas por incorporar tradições subalternas.

Tomando a colonização como ponto de partida, a língua dos conquistadores lusitanos se viu permeada por marcas prévias, principalmente pelo legado árabe e, depois das grandes navegações do século XVI, pelas influências africanas e indígenas. Nesse quesito, aliás, o Brasil tem o que mostrar em termos de particularidades. Esta constatação permite justificar o apego que temos à língua mãe e, em contraste, às dificuldades dos brasileiros médios frente o aprendizado de outros idiomas. Há recursos facilitadores como o entendimento da cultura que ambienta cada manifestação. Nesse sentido, ter noção dos critérios vivenciais de cada grupo ajuda muito.

Fiorin, linguista, pesquisador  em pragmática e semiótica

Sabe aquele estereótipo sobre os ingleses frios e com humor específico? Facilita, Inclusive, na variação do inglês norte-americano muito mais descontraído. O mesmo vale para o francês da França e de correlatos como o do Canadá, do Haiti ou outros. O espanhol é mais uniforme, mas também abriga divergências reveladoras, principalmente na América Latina. Mesmo com certa cerimônia, cabe admitir que alguns aspectos desenvolvidos a favor da compreensão de idiomas, se deve ao sentido dos chamados palavrões. E rende bastante saber das transformações de seu uso maldito através dos tempos. Sim, os palavrões mudaram de sentido na medida em que os grandes cenários históricos também variaram.

Vista em grandes blocos, a trajetória dos mecanismos expressivos obedece às vulnerabilidades de espaço e tempo. Durante a Idade Média, por exemplo, a sensibilidade religiosa dominante determinava a proscrição de palavras relativas ao demônio e ao inferno. No âmbito daquela matriz cristã, quando citações aconteciam fora de contextos estritos, eram consideradas pecaminosas. A fala popular medieval implicou variações curiosas, ainda que muitas persistam atenuadas até hoje, pelo costume da época, mandar alguém “pros quintos do inferno”, era falta tida como xingamento capaz de penitência. O mesmo se diz de “mandar para as trevas” ou para “aquelas partes”. A fim de evitar riscos, aproximações com animais se popularizaram em termos de referência ao demo: besta, cão, chifrudo, dragão do mal. Pela oralidade, algumas dessas nominações permanecem até hoje longe, contudo, de ter tanto peso. A este respeito, cabe citar Steven Pinker, autor que determina cinco maneiras diferentes de usar os palavrões: descritivamente “vamos foder”, idiomaticamente “está foda”, abusivamente “foda-se” ou catarticamente “fodeu”.

A revolução científica do século XVIII, tratou de esvaziar a determinação religiosa, e isso permitiu mudar a dinâmica das ofensas. Ainda que perviva memória das velhas formas de pragas, uma pequena revolução do palavreado aconteceu trocando ênfases. Questões ligadas ao progresso das doenças e ao desenvolvimento de hábitos de higiene deram lugar a um palavreado muito mais escatológico, ligado aos cuidados com o corpo. Assim, os palavrões foram se constituindo em referência a excrementos, detalhes do corpo, referências repugnantes ou tidas como obscenas que, contudo, foram se ajeitando de maneira a adequar a cada situação. A palavra “merda”, por exemplo, tem sentido muito mais leve nas tradições anglo-saxônicas do que nas sequências ibéricas. Já “tomar no cu” entre nós é referência muito mais grave do que para adeptos da língua inglesa.

No fim do século XIX, dado o impacto da ética proposta pela Rainha Vitória da Inglaterra, ofensas familiares lograram destaque como forma de ataque. Em função da requalificação familiar, a figura da mulher, em particular da mãe, ganhou liderança em formas ofensivas. Dizer que alguém é “filho da puta”, ou mesmo mandar alguém “à puta que o pariu” logrou foros de limite. Junto a esse novo código de conduta, deu-se também a sexualização dos palavrões. Termos como “corno” ou mesmo referências ao órgão sexual masculino como “caralho” atestam o machismo linguístico agora posto à prova.

Reflexões sobre os palavrões, ainda que rápidos, permitem que pensemos nos valores de nosso tempo e então fica a pergunta final: como será que trataremos os palavrões debaixo da cultura do politicamente correto? Será que os palavrões sobreviverão?

Será?