Ao longo do século XX, parte importante da história do samba se confunde com a história da esquerda brasileira, na medida em que muitos de seus compositores usaram a música popular como trincheira contra governos e estruturas de poder identificados com a direita política — sobretudo contra a ditadura militar instaurada em 1964, regime que se autodefinia como defensor da ordem, do anticomunismo e dos valores conservadores, e que via nessa produção artística uma ameaça real à sua narrativa oficial.
O caso mais emblemático desse enfrentamento é o do sambista Zé Kéti. Ainda no início dos anos 1960, sob o governo do então governador da Guanabara, Carlos Lacerda — figura de forte oposição de direita ao presidente João Goulart e defensor de políticas de remoção de favelas —, Zé Kéti compôs o samba “Opinião”, em protesto direto contra a expulsão de comunidades pobres de seus morros. Meses depois do golpe militar de 1964, essa mesma canção deu nome e força ao espetáculo “Opinião”, dirigido por Augusto Boal e produzido por nomes ligados ao Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes — organização de orientação de esquerda perseguida pelo novo regime. No palco, Zé Kéti dividia a cena com Nara Leão e João do Vale, unindo o morro carioca, a bossa nova engajada e o sertão nordestino numa só voz de resistência. Os versos “podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião” tornaram-se, quase instantaneamente, um dos primeiros e mais duradouros hinos da canção de protesto brasileira contra a ditadura, sendo regravados por artistas como Maria Bethânia e Elza Soares nos anos seguintes.
Zé Keti
Outra frente de enfrentamento, menos lembrada, veio do próprio interior das escolas de samba, através da militância de Antônio Candeia Filho. Nos anos 1970, no auge do regime militar, Candeia liderou um movimento de resistência cultural que resultou na fundação do Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo, em 1975. Reunindo sambistas como Paulinho da Viola, Nei Lopes e Wilson Moreira, o projeto Quilombo se opunha à crescente espetacularização comercial do carnaval — cada vez mais televisionado e voltado a interesses empresariais — e reivindicava a preservação das raízes afro-brasileiras do samba como forma de resistência política num momento de forte repressão. Ainda que Candeia recusasse rótulos separatistas, insistindo num discurso democrático e inclusivo, o Quilombo era compreendido por seus fundadores como um ato de protesto contra o isolamento da comunidade sambista negra dentro de um carnaval cada vez mais moldado pelos interesses de uma elite branca e conservadora — uma disputa que, mesmo travada fora do vocabulário partidário estrito, expressava valores claramente identificados com a esquerda: valorização popular, consciência racial e recusa da mercantilização.
É importante notar que essa oposição entre samba de esquerda e poder de direita não deve ser lida de forma simplista. A ditadura militar reprimia não apenas por convicção ideológica estritamente partidária, mas por temor a qualquer expressão popular de crítica ou mobilização social, viesse ela de onde viesse — e o próprio samba, em outros momentos de sua história, também serviu a projetos de poder que não se encaixam com nitidez no espectro esquerda-direita tal como o compreendemos hoje. Ainda assim, é inegável que artistas como Zé Kéti e Candeia se identificavam com pautas de justiça social, direitos das comunidades populares e resistência à repressão, e que suas canções e projetos coletivos funcionaram como um dos poucos espaços em que essas vozes puderam continuar se manifestando publicamente, mesmo quando os canais institucionais de oposição haviam sido praticamente fechados pelo regime.


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