Se existe uma prova incontestável de que o calendário católico foi desenhado por alguém com um apurado senso de humor negro, essa prova é a sequência dos dias 1º e 2 de novembro.
A lógica do calendário celestial é simples, mas cruel: primeiro colocamos o Dia de Todos os Santos, uma data reluzente, cheia de auréolas, harpas flutuantes e virtuosismo espiritual. É o dia em que o céu veste o seu melhor terno para celebrar a elite da bondade universal — gente que viveu de pão e água, perdoou os inimigos e nunca falou mal do vizinho. É uma festa impecável, de uma brancura reluzente.
E logo no dia seguinte, sem nenhum intervalo para recuperar o fôlego? Pás! O Dia dos Finados. A transição é de um requinte cômico absoluto. É como se a Igreja nos dissesse: “Muito bem, ontem celebramos os perfeitos, os milagrosos, os puros de coração. Agora limpem a purpurina e peguem as velas, porque hoje é dia de lembrar que todo o resto de nós vai virar poeira mesmo”. É o choque de realidade definitivo, a maior ressaca moral do calendário litúrgico.
No dia 1º de novembro, a humanidade tenta se comportar. A gente pensa nas virtudes de São Francisco, na paciência de São Bento, na bondade de Santa Rita. Sentimo-nos quase elevados, com vontade de ser pessoas melhores, de perdoar as ofensas e de comer menos carboidrato. Mas aí o sol nasce no dia 2, e a realidade bate à porta vestida de preto, carregando um vaso de crisântemos e um cheiro inconfundível de vela queimada.
O Dia de Finados é o banho de água fria na nossa prepotência. Ele nos lembra que, por mais que a gente se esforce no Dia dos Santos para parecer anjo, a nossa vocação histórica é mesmo a mortalidade com dor nas costas.
Imagine o diálogo na portaria do Céu na virada da meia-noite do dia primeiro para o dia dois. São Pedro suspira, tira a auréola da cabeça, solta a gravata do terno de gala e diz para o anjo da guarda de plantão: “Pronto, acabou a festa dos imaculados. Abre o portão do cemitério que a turma dos mortais comuns tá vindo aí pedir oração pelo troco do pão que esqueceram de devolver em 1994”.
O brasileiro, claro, adaptou a data com a sua maestria habitual. O Finados virou um evento social único: o único dia do ano em que ir ao cemitério é um passeio em família, onde se encontra aquele parente distante que você não via desde o Natal passado, e a conversa inevitavelmente começa com um “Nossa, como o fulano encolheu na foto do túmulo, né?”.
A verdade é que colocar o Dia dos Finados logo após o Dia de Todos os Santos é uma lição de humildade pedagógica. A santidade é para poucos; a cova é para todos. Primeiro a gente olha para o teto da capela e suspira com a perfeição dos santos. No dia seguinte, olhamos para a terra batida e lembramos que a nossa única garantia é que, no final das contas, o show acaba para todo mundo.


No Comment