Se um dia eu resolvesse entrar nesse ringue de luta livre que chamamos de política, não cairia no erro de principiante. Nada de prometer “saúde padrão Suíça”, “educação do futuro” ou “combate implacável à corrupção”. O eleitor já ouviu tanto essas lorotas que desenvolveu imunidade, como quem toma vacina de mentira a cada quatro anos. Minha campanha seria baseada no mais sincero, transparente e cristalino estelionato eleitoral de utilidade pública.
O slogan caberia num adesivo de para-choque “Vote em mim. Eu prometo não fazer absolutamente nada”
Imagine o alívio nacional. Enquanto meus adversários anunciam obras faraônicas que vão transformar a cidade num canteiro por quatro anos para, no fim, entregar meio viaduto que desaba na primeira garoa de dezembro, eu ofereço a única coisa que nenhum político jamais entregou: a inércia garantida. Meu mandato seria uma ode à preguiça administrativa. Sem obra para superfaturar, sem imposto novo para bancar projeto que ninguém pediu e, principalmente, sem reunião de emergência ou pauta bomba.
No meu plano de governo, a prioridade número um seria o sossego do cidadão. Lançaria com pompa o Programa Nacional de Combate ao Telemarketing. O infeliz que ligasse na hora do almoço oferecendo fibra ótica seria julgado por tribunal popular, ali mesmo na fila do pão, e condenado a catar bituca na praia todo domingo até se arrepender de ter nascido com voz de “bom dia, senhor, tudo bem com o senhor?”.
Na mobilidade urbana, nada de prometer gratuidade que só existe na imaginação inocente. Eu baixaria um decreto oficializando o engarrafamento como Momento Nacional de Reflexão, com distribuição gratuita de pão de queijo e café morno nos semáforos. O trânsito continuaria parado, claro, porque milagre eu não faço, mas ao menos ninguém passaria fome ouvindo o locutor da rádio anunciar pela décima vez que “a lentidão segue intensa”.
E as caminhadas de campanha? Um capítulo à parte. Eu não pegaria bebê no colo, não apertaria mão de ninguém e jamais fingiria saborear pastel de vento com caldo de cana servido num copo de plástico reutilizado. Faria tudo do sofá, em live, de bermuda e chinelo de dedo. E diria ao eleitor, olhando no fundo da câmera: “Meu amigo, estou poupando a sola do meu sapato e a sua paciência. Não vou até a sua rua prometer asfalto porque sei que, no fundo, você prefere me ver bem longe do seu portão.”
No horário eleitoral gratuito, nada daquela trilha épica com gente sorrindo em câmera lenta para um horizonte imaginário. Meus dois minutos seriam de barulho de chuva e filhotinhos de cachorro latindo. Um oásis de paz no meio do apocalipse da propaganda política. Seria o único candidato cujo programa as pessoas assistiriam de propósito, provavelmente para dormir. Eleito, meu primeiro ato seria uma emenda constitucional determinando que a segunda-feira começa, oficialmente, às duas da tarde e a noite começa depois do happy hour.
A verdade é que o brasileiro cansou de salvar o mundo a cada eleição. No fundo, a gente só quer um político que não trabalhe e de preferência, roube só um pouquinho da nossa paciência e que passe o mandato inteiro sem aparecer no Jornal Nacional e nos deixe em paz para cuidar da própria vida.
Então, no domingo, faça a sua parte: acorde cedo, vá até a urna e digite o meu número com convicção. Leva menos de um minuto, e eu juro que vai ser o último esforço que você vai precisar fazer pelos próximos quatro anos. Depois disso, pode ir à praia tranquilo. A gente se encontra lá — eu de calção de banho, você de consciência limpa, e o país, pela primeira vez na história, sem nenhuma obra parada. Afinal, não dá para parar o que nunca começou.


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