“No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.”

Há quase uma década escrevi uma crônica publicada aqui no Contato provocando o leitor a enfrentar, sem pudor, os versos eróticos de Carlos Drummond de Andrade reunidos em “O amor natural”. Reli aquele texto outro dia e me vi outro: não porque tenha mudado de opinião sobre Drummond, mas porque mudei de olhar. O tempo — e o próprio debate público sobre corpo, desejo e representação — me obriga a reescrever, não a me desdizer.

Carlos Drummond de Andrade

Naquela época, apoiei-me em Marilena Chauí para distinguir erotismo de pornografia, e ainda sustento a distinção. Mas hoje acrescento uma inquietação que não tinha: toda essa celebração do corpo feminino fragmentado — a bunda, as coxas, os seios — vem sempre da voz de um homem que observa, nomeia e goza. É a poética do olhar masculino em sua forma mais lírica, e isso não a desqualifica, mas pede contextualização. Drummond escreveu para a gaveta, com medo, é verdade; havia ali um pudor genuíno, quase infantil, contrastando com a ousadia do vocabulário. Hoje reconheço nesse contraste não apenas recato de época, mas também uma forma de poder: o poeta podia guardar o que quisesse, decidir quando e como revelar o próprio desejo, prerrogativa historicamente negada às mulheres que ele descrevia.

Isso não anula a beleza dos versos. Ainda me arrepio com “Bundamel bundalis bundacor bundamor”, essa aliteração juguetona que transforma anatomia em música. Mas hoje ponho Drummond ao lado de outras vozes que também trataram o corpo com a mesma ousadia, porém a partir de outro lugar de fala. Penso em Hilda Hilst, contemporânea de Drummond, cuja obra eroticamente explícita — “Do Desejo”, “Bufólicas” — foi por décadas empurrada para as margens da crítica, tratada como excêntrica ou menor, enquanto os versos guardados de Drummond, quando finalmente publicados, ganharam prefácio elogioso e recepção deslumbrada. A mesma ousadia temática recebeu tratamentos radicalmente diferentes conforme o gênero de quem escrevia. Penso também em Adélia Prado, que erotiza o cotidiano doméstico com uma naturalidade que dessacraliza tanto o sexo quanto a santidade, e em Ana Cristina Cesar, cuja escrita do corpo é fragmentária, nervosa, sem a serenidade contemplativa de Drummond diante da “bunda que se diverte por conta própria”.

“A bunda é a bunda,

redunda”

Reconheço ainda que minha leitura de 2016 talvez tenha sido complacente demais com a ideia de que arte erótica está automaticamente acima de julgamento moral. Sustento que sim, a arte pode e deve tratar do corpo e do prazer sem culpa. Mas “acima de julgamento” não significa “acima de leitura crítica”. Podemos admirar a musicalidade de Drummond tratando a bunda como personagem autônoma — “a bunda é a bunda / redunda” — e, ao mesmo tempo, notar que essa autonomia é concedida pelo poeta, não conquistada pela mulher retratada.

Talvez a diferença entre o ZéCarlos de dez anos atrás e o de hoje seja esta: antes, eu queria convencer o leitor a superar o pudor e entrar no erotismo drummoniano sem reservas. Hoje quero convidá-los a entrar com os olhos bem abertos — deslumbrado com a forma, mas também atento a quem fala, de onde fala, e sobre quem fala. A poesia erótica de Drummond continua sendo, para mim, “puro orgasmo” de linguagem. Só que agora escuto, ao lado dela, as vozes que também mereciam gritar — e que a história insistiu em silenciar.