Confesso, sem pudor: sou promíscuo quando o assunto é futebol. Sou fiel ao Brasil, sim, mas tenho uma janela aberta para amores passageiros. Não é traição — é pesquisa de campo. Assumo minha culpa com orgulho: torço pelo Brasil desde que aprendi a falar “gol”. Ainda assim, quando Cabo Verde começa a compor aquele hino das ilhas, meu corpo reage como se tivesse ouvido meu próprio hino. A seleção de Cabo Verde traz uma sensação de “férias com drible” — nostalgia em formato de passe. A Costa do Marfim, por sua vez, tem aquele futebol que lembra tambores: ritmo, força e um certo charme que faz qualquer zagueiro se perder. E não esqueçamos Gana, Nigéria e Senegal — cada uma com sua bateria histórica: velocidade, coração e um senso de humor tático que transforma contra-ataques em samba-enredo.

Mas há também a Ásia que me seduz. O Irã, por razões que ultrapassam o campo, merece aplausos pela obstinação: desafios políticos, sanções e um público que canta com a garganta presa, como quem aprende a respirar de novo. A Coreia do Sul, sempre disciplinada; o Japão, com sua precisão cirúrgica; o Catar que decidiu investir pesado — às vezes o investimento vira peça de teatro, outras, futebol de gala. Apoiar esses países é um jeito de dizer: admiro a luta, respeito a técnica e aprecio a luta pela globalização esportiva.

Tenho, confesso, uma política afetiva de nances: países africanos e asiáticos recebem minha simpatia máxima; competidores da América do Sul ganham bem menos benevolência. Explico: com irmãos continentais, a relação é complicada — há rivalidade histórica, memórias de jogos injustos e aquele ciúme fraterno. Torcer contra a Argentina ou o Uruguai traz um prazer culpado, quase tão saboroso quanto pisar numa casca de banana. Já torcer contra seleções de ex-potências colonizadoras é uma delícia sem culpa: ver a França, a Inglaterra, Portugal ou a Espanha perder é um pequeno orgasmo moral. A alegria que vem da queda do colonizador tem cheiro de justiça.

Mas há ambiguidade na minha alma torcedora. Em campo político e simbólico, eu me coloco ao lado dos que sofreram agressões históricas; emocionalmente, no entanto, meu coração faz escala em portos vizinhos. Por exemplo: posso vibrar quando Senegal vence, mas hesitar quando o Chile enfrenta o Brasil — é uma mistura de solidariedade global e ciúme regional. Essa duplicidade me define: sou um cosmopolita com sotaque local. Se isso é indecisão, prefiro chamar de sofisticada diplomacia do sofá.

E não é apenas estética: há prazer pedagógico em torcer por seleções pouco lembradas. Toda vez que um nome novo aparece nas manchetes — seja um ponta da Arábia Saudita com chute de raio ou um volante da Argélia que lembra poesia — eu ganho cultura pop sem sair do sofá. Aprendo sobre história de colonização, migrações, línguas e culinárias; sei que o prato que minha vizinha comeu vai ter ingredientes que eu não consigo pronunciar, mas ao menos posso aplaudir o futebol que trouxe a receita à tona.

A seleção do Irã transforma um chute em comentário histórico

A seleção do Irã fica, para mim, em uma catransformando um chute em comentário históricotegoria à parte: ela carrega um simbolismo que transcende as quatro linhas. Quando o Irã marca um gol, eu vejo, comicamente, um mapa geopolítico recortado por uma bola. Não é exagero: é apenas a minha cabeça acadêmica transformando um chute em comentário histórico. E se alguém me chama de sentimental, respondo que a emoção é pesquisa aplicada.

No fundo, torcer por países colonizados e desejar tropeços dos colonizadores é um esporte intelectual que combina ética e estética. Há um prazer estético em ver estilos alternativos brilharem e um prazer ético em imaginar pequenas reparações simbólicas — os gols como extratos de justiça poética. Ainda assim, não sou santo: se o Brasil está em campo, há uma probabilidade elevada de eu gritar “gol” sem pensar. É que a relação com o Brasil é mais cozinha que diplomacia; é feijoada: cheia de camadas, calorias e perdão.

Imagino uma final inusitada: Brasil contra Senegal, ou Irã versus França. A expectativa me deixa eufórico; a ambiguidade, entretenida. No fim, independente do placar, a arquibancada é um mercado de afetos: troco de camiseta, provo simpatias, distribuo ironias. E se uma nação pequena vence uma potência antiga, eu levanto a taça metafórica e brindo com orgulho (e uma piscadela para o Brasil).

A contradição é, talvez, a melhor parte: ser solidário com os africanos e asiáticos, cauteloso com os vizinhos americanos, e sempre, invariavelmente, brasileiro no momento do apito final. É um serviço público de torcida: um voto de simpatia global com preferência regional — e um senso de humor que nunca perde o jogo de vista.