para meus filhos, netos e bisneto
Parei para escrever e pedi um café. Foi o que bastou. O tema brotou do aroma e me levou a uma arqueologia sentimental: meu pai e o café. Foi só o cheiro esfumaçar para que, como quem escava camadas de tempo com as mãos, eu reencontrasse uma cena antiga, quase doméstica demais para ter sido esquecida, e justamente por isso mais durável: ele era o primeiro a acordar, o primeiro a circular pela casa, o primeiro a acender o fogão e a preparar o café da família.
Meu pai tinha com o amanhecer uma intimidade que hoje me parece um tipo de vocação. Enquanto a casa ainda dormia, ele já estava de pé, em silêncio, como se soubesse que havia uma ordem mínima a ser restabelecida antes que o dia começasse de fato. A cozinha era então o seu pequeno reino provisório. O barulho da água, o pó caindo no coador, o cheiro se espalhando pouco a pouco pelos cômodos: tudo isso compunha uma cerimônia sem solenidade. O café era o seu modo de dizer bom dia antes mesmo das palavras.
Lembro-me de que o café feito por ele parecia ter mais sabor. Tinha cuidado. Havia um gesto exato no modo como segurava a chaleira, uma paciência quase artesanal no tempo de coar, uma atenção discreta que transformava a repetição em afeto. Não era apenas preparar a bebida; era cuidar da casa acordando-a aos poucos, como se a manhã fosse uma criança a ser despertada sem susto. E talvez fosse mesmo. A família começava o dia dentro dessa pequena liturgia, e o pai, no centro dela, parecia menos um chefe e mais um guardião.
Havia também o café sem açúcar, que ele tomava com a naturalidade de quem não precisava adoçar o mundo para suportá-lo. Eu, que às vezes estranhava esse gosto severo, hoje o vejo como uma espécie de lição que teimo em não aprender. O café dele não era enfeitado, nem precisava ser. Bastava o aroma forte, o calor na xícara, a pausa entre um gole e outro. Era um café que dizia muito sem precisar de explicação. E havia ali, escondida na simplicidade, uma ternura desarmada.
Talvez seja por isso que a lembrança tenha vindo inteira quando parei para beber aquele primeiro gole. O cheiro me devolveu não apenas meu pai, mas o modo como ele organizava a vida sem parecer fazê-lo: acordando antes de todos, oferecendo a xícara como quem oferece presença, criando pela repetição uma espécie de abrigo. Nem sempre os pais sabem que deixam herança. Às vezes ela não está em discursos, conselhos ou grandes cenas. Está nesse gesto mínimo de acordar cedo para que os outros encontrem a casa pronta para viver.
Dei conta agora que, quando tomo café, sorvo a lembrança daquele ser caminhando pela cozinha ainda escura, no vapor subindo da xícara, na família despertando devagar ao redor de um gesto que parecia pequeno, mas era inteiro. Penso que meu pai talvez tenha sido isso: o primeiro aroma do dia, a primeira presença, a primeira forma de cuidado. E descubro, com alguma doçura, que certas lembranças não passam. Elas continuam coando dentro de nós.


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