Atire a primeira pedra quem nunca teve a fantasia de ser o principal protagonista de um espetáculo?

Quando eu era criança e me perguntavam o que queria ser quando crescesse, eu não tinha dúvidas filosóficas nem vocação burocrática. Respondia com a segurança dos iluminados: “Chofer de caminhão”.

Não era qualquer caminhão. Eram aqueles FNMs enormes, monumentais, barulhentos, que pareciam atravessar continentes só com a força do ronco. O motorista lá em cima (eu), soberano na cabine, olhava o mundo de um trono mecânico. Aquilo, para mim, era o ápice do poder: conduzir toneladas de carga, dominar marchas intermináveis, buzinar como quem anuncia a própria importância. Eu não queria apenas dirigir; queria ocupar a estrada. Havia, confesso, um discreto complexo de superioridade sobre rodas.

Em segundo lugar na minha lista de grandezas vinha o cargo de maestro. Sim, eu queria reger uma orquestra. Não por amor desinteressado à música erudita que, aliás, eu mal conhecia, mas pela possibilidade de levantar uma batuta e ver cinquenta pessoas me obedecerem com precisão matemática. Um gesto meu e os violinos chorariam. Um olhar severo e os trombones se conteriam. Aquilo não era arte; era comando civilizado. Eu sonhava com aplausos em pé e reverências discretas. Nada mais sedutor para uma criança do que mandar sem precisar gritar.

Dirigir um caminhão ocupou muitos sonhos

Mas havia também o futebol. Eu me via no Maracanã, estádio lotado, último minuto do jogo, o time dependendo de um gol. A bola sobrava para mim e eu marcava o gol redentor. A multidão em delírio, narrador rouco, meu nome ecoando como hino nacional. O goleiro adversário, derrotado pela minha grandeza esportiva, aceitava o destino com humildade. E corria de braços abertos, distribuindo superioridade pelos quatro cantos do campo.

Reparem. Em todas as minhas ambições infantis havia um detalhe comum: eu estava sempre acima. Acima da estrada, acima da orquestra, acima da defesa adversária. Não era exatamente arrogância; era uma forma poética de desejar protagonismo. Criança não quer ser coadjuvante da própria vida.

O tempo, contudo, tem uma especialidade cruel: ele nos apresenta à conta. Cresci. E virei um comportado cidadão que paga boletos. Muitos boletos. Alguns com juros, outros com resignação. Meu domínio atual se resume ao controle remoto (quando as pilhas colaboram) e à escolha do sabor da pizza nas sextas-feiras. A única orquestra que me obedece é a do despertador, que toca às seis e me rege para fora da cama com brutal objetividade.

De vez em quando, no trânsito, quando um caminhão passa imponente ao meu lado, ainda sinto aquele velho impulso de superioridade rodoviária. Olho para a cabine elevada e penso: “Ali vai um imperador da BR.” Em seguida, lembro que estou atrasado para uma reunião de professores da minha escola.

Quando assisto a um concerto na televisão, observo o maestro com uma mistura de admiração e ciúme infantil. Ele ergue a batuta e dezenas de músicos seguem seu comando. Eu ergo a conta de luz e só. Cada qual com sua sinfonia.

Qual garoto (marmanjo também) não se sentiu o Pelé com a bola nos pés?

E no futebol? Bem, continuo marcando gols decisivos, mas apenas nos comentários inflamados do sofá. Sempre sei o que o atacante deveria ter feito, como se o talento estivesse guardado em mim, “desportizado” por falta de oportunidade histórica.

Às vezes penso que o tal complexo de superioridade não desapareceu; apenas mudou de escala. Já não quero dominar estradas, orquestras ou estádios. Contento-me em organizar minha pequena agenda, cumprir compromissos e, ocasionalmente, achar que sei mais do que o atendente do telemarketing.

E, pensando bem, talvez não haja tanta distância assim entre o passado glorioso e o presente comportado. Continuo querendo conduzir alguma coisa, coordenar algum caos, decidir algum resultado, nem que seja o placar da vida doméstica de um viúvo solitário.

Se isso é complexo de superioridade, confesso sem culpa: prefiro chamá-lo de lembrança de grandeza. Afinal, quem nunca quis ser gigante antes de aprender a pagar boletos, pregar botões e ir à farmácia mais próxima? Quem não?