Queiramos ou não, as Olimpíadas chamam a atenção. Antes como agora, dá-se um respiro no cotidiano ofegante e nossa rotina, interrompe os alardes de guerras, conflitos, corrupção e desalento humanitário. Essa condição que corre ao longo dos tempos, nesta fase pandêmica e de recrudescimento de atritos políticos, propõe reflexões sérias. Há algo de solene nisto, posto que o mundo devota cuidado a uma atividade que interliga, de alguma maneira, pessoas, países, culturas. O intervalo de quatro em quatro anos permite reciclar situações que, em nível mundial, são postas a prova em disputas alheias aos sistemas políticos.

Não há como negar a beleza da proposta olímpica que, afinal, pela juventude e dedicação orientada sugere um futuro melhor, expressão de beleza e superação de limites. Não é sem sentido que a paz e o convívio entre os povos são evocados na chave da felicidade universal. Há uma memória romântica ilustrando tudo, posto que as primeiras referências helênicas prezavam a suspensão de toda e qualquer disputa entre as cidades-estados gregas, tudo em favor de competições sadias e disputas honradas por competições regradas. Mais tarde, em 1928, o lema cunhado em latim deixava claro o teor das disputas “citius, altius, fortius” (mais rápido, mais alto, mais forte). A juventude e a saúde afloram como símbolo da esperança de dias melhores e, sobretudo, valoriza-se o aperfeiçoamento.

Referências helênicas prezavam a suspensão de toda e qualquer disputa entre as cidades-estados gregas

São vastas e complexas as tramas simbólicas implicadas nas atividades olímpicas. Lindas, todas: louros da vitória, medalhas, tochas, piras, pódio, tudo é feito para exaltar as melhores condições, sem desprezar os que não chegam lá. As disputas são metáforas da perfeição buscada e, nessa meta, a premiação é a coroação do esforço máximo. Ouro, prata e bronze hierarquizando prêmios pelas almejadas vitórias. E quanto emprenho em cada participante. Mas isto tem uma longa e bonita história.

Os Jogos Olímpicos da antiguidade clássica perderam prestígio aos poucos, até que, em 1914, o Barão de Coubertin, na França, lavrou campanha para recuperá-los. E foi assim que se abriu nova fase que, aos poucos, vai buscando se adaptar ao mundo moderno e às novas agendas. Naquele recomeço, mulheres, por exemplo, não podiam participar, mas isso foi mudando, incorporando novas situações como os paraolímpicos, e hoje, na edição de Tóquio, temos a diversidade presente não apenas em termos raciais, mas também de gêneros e orientações sexuais.

Barão de Coubertin, na Franca, em 1814, lançou campanha para recuperar o espírito olímpico

Há inegável luta pela representatividade comunitária. E por falar em evolução, a grande aula desta vez, sem dúvida, foi dada por Simone Biles. Aclamada como a grande estrela da temporada, depois de vitórias absolutamente inacreditáveis na modalidade Ginástica Olímpica, cercada de toda expectativa do mundo, ela soube dizer “não”. Surpreendeu o mundo ao não participar em uma das provas mais esperadas do certame. Perplexos, soubemos da decisão da atleta que, a nosso ver, teria tudo para brilhar. Atribuindo à pressão, a jovem ginasta explicou seu veredito calcado na certeza de que não conseguiria coordenar mente e corpo, em uma prova de concentração absoluta. Demorou um pouco até que o público absorvesse a decisão inesperada e chocante.

Corajosa, Simone Biles surpreendeu o mundo ao não participar em uma das provas mais esperadas

Passado o momento da notícia, a reflexão coletiva passou a ver tudo com novo olhar. E então se pensa na gravidade da decisão, resultado da combinação do risco da própria vida com o equilíbrio emocional e a opinião pública. O debate tem sido intensificado na chave da saúde mental, e esta é a grande lição da experiência olímpica de Tóquio: saber os limites, ter coragem e autopiedade. Sim, compaixão para consigo mesmo. Esta é lição olímpica que Simone Biles nos lega. E se algo aprendermos com isso, todos estamos premiados. É preciso saber dizer “não”…