Sim, confesso. Despertei o brega que habita em mim.
Durante anos cultivei uma reputação moderadamente respeitável. Leio coisas densas, cito autores impronunciáveis, faço cara de quem distingue oboé de fagote. Mas bastou uma noite de distração, um algoritmo mal-intencionado e um copo generoso de nostalgia para despertar meu lado B: a sofrência.
Sim, confesso. Despertei o brega que habita em mim. Não aquele brega discreto, de guardanapo bordado e porta-retrato dourado. Falo da sofrência assumida, teatral, com direito a mão espalmada no peito e olhar perdido no horizonte da varanda. Descobri que dentro de mim mora um cantor de bar imaginário, que entoa para uma plateia de cadeiras vazias e memórias mal resolvidas.
Tudo começou com “Infiel”, de Marília Mendonça. Eu, que sempre defendi a contenção emocional, me peguei sussurrando: “Eu te avisei”. Não para ninguém em especial, apenas para o universo, esse grande traidor conceitual. Depois veio “50 Reais”, também de Marília Mendonça, que é praticamente um curso intensivo de dignidade ferida. Há algo de profundamente catártico em resolver a crise conjugal com uma nota simbólica e um olhar de quem venceu por pontos. A sofrência não busca consenso; ela quer placar. E então, quando dei por mim, estava cantarolando “Notificação Preferida”, de Zé Neto & Cristiano, com uma convicção que faria corar qualquer tratado de estética. Descobri que meu lado B não apenas ouve: ele interpreta, gesticula, aponta o dedo invisível para um culpado imaginário.
A Rainha da sofrência
A sofrência tem uma pedagogia própria. Ela ensina que todo relacionamento termina com uma frase de efeito. Que todo ex deve ser enfrentado com uma metáfora doméstica. Que a dor precisa de refrão repetido três vezes para fixar bem o aprendizado. E eu, que sempre julguei o exagero alheio, me vi profundamente confortável nesse território. Há uma honestidade quase brutal na sofrência. Quando Wesley Safadão canta “Camarote”, não é apenas uma música; é uma tese sobre ascensão social pós-término. Quando Maiara & Maraisa entoam “Medo Bobo”, é a própria fragilidade humana pedindo bis.
Meu lado B vibra com isso. Ele gosta de frases diretas, de sentimentos sem rodapé, de emoções que não pedem bibliografia. A sofrência dispensa notas explicativas. Ela é a nota. Percebi, com certo susto, que sei letras inteiras. Que antecipo o refrão com prazer infantil. Que balanço a cabeça em aprovação quando a cantora ameaça ir embora “com Deus”, esse Deus sempre convocado como testemunha de desilusões.
E o mais revelador: a sofrência é democrática. Não exige formação, apenas história. Todo mundo já teve uma notificação que doeu, uma ausência que latejou, um orgulho ferido que pediu trilha sonora. O lado B é universal, só varia o volume. Durante o dia, defendemos a sobriedade. Falamos em minimalismo, em sutileza, em economia de recursos expressivos. À noite, porém, há um momento em que a alma pede exagero. Pede eco. Pede teclado dramático e um “eu te avisei” dito com convicção. Talvez o cafona seja apenas o sentimento sem ironia protetora. A sofrência é a coragem de parecer excessivo. É admitir que a vida, às vezes, precisa de trilha sonora com três acordes e muita verdade.
Não abandonarei meus livros difíceis. Continuarei citando autores sérios e defendendo análises sofisticadas. Mas agora sei que, dentro de mim, há um palco iluminado por luz roxa onde um cantor imaginário ergue o microfone e declara, sem pudor: “Supera”. E eu supero. Cantando junto.
Porque todos temos um lado B. Uns o escondem sob camadas de erudição. Outros o deixam roncando baixinho na noite da alma. Eu resolvi dar play.


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