O carnaval é uma dessas invenções que o mundo inteiro reivindica, mas que o Brasil temperou com alho, pimenta e contradição. Dizem que nasceu na Europa, que veio em navios sérios, com máscaras comportadas e bailes aristocráticos. Pode ser. Mas, ao desembarcar por aqui, perdeu a compostura, tirou o fraque, vestiu plumas e aprendeu a sambar. Há quem diga que veio da África, outros dizem é originário da India… Seja como for, virou outra coisa. Virou nosso…
Há carnaval em Veneza, em Nice, em Nova Orleans, em Trinidad Tobago, na Bolívia. Todos respeitáveis. Todos fotogênicos. Mas o brasileiro tem algo que não cabe em cartão-postal: ele transpira. Ele mistura. Ele exagera. Aqui, o carnaval não é apenas festa, é método de convivência.
Costuma-se dizer que o carnaval é a inversão do cotidiano. O pobre vira rei, o rei vira piada, o tímido dança, o sisudo sorri. É verdade, mas incompleta. Porque, no Brasil, o carnaval não inverte apenas; ele revela. Ele mostra que aquela rigidez toda do resto do ano é, em parte, teatro mal ensaiado. Basta um tamborim para que o doutor descubra que sabe requebrar e o severo chefe de família cante marchinha com rima duvidosa.
Há algo de profundamente democrático na maneira como nos comprimimos na mesma rua, suando a mesma alegria. No bloco, o sobrenome perde importância, o cargo evapora, o currículo não samba melhor que ninguém. O que vale é o passo, a disposição, a capacidade de rir de si mesmo. E nisso somos especialistas.
O brasileiro não precisa de manual para brincar. Ele inventa. Se não há trio elétrico, improvisa um alto-falante. Se não há fantasia sofisticada, resolve com papel crepom e criatividade. Já vi pirata de sandália, Cleópatra de chinelo e super-herói barrigudo defendendo a justiça com lata de cerveja na mão. A imaginação aqui não pede autorização.
E os ritmos. Ah, os ritmos. O carnaval brasileiro não fala uma língua só. Ele é poliglota musical. No Rio, o samba desfila com comissão de frente e alegoria; na Bahia, o axé sacode multidões em transe coreografado; em Pernambuco, o frevo desafia a ortopedia; em Minas, os blocos reinventam a tradição; no interior, marchinhas resistem com letras que zombam da política, da carestia e do próprio folião. Cada canto do país tem seu sotaque carnavalesco, e todos se entendem no idioma universal do batuque.
É curioso como suportamos o ano inteiro discutindo ferozmente sobre política, futebol e o preço do café, mas, em fevereiro, conseguimos dividir a mesma calçada sem necessidade de CPI. O sujeito que passou doze meses indignado com o vizinho aceita dividir o isopor e até oferece gelo. A senhora que condena os excessos juvenis dança ao lado do neto fantasiado de unicórnio. O carnaval suspende, ainda que provisoriamente, a vocação nacional para a rixa permanente.
Claro que há exageros. Sempre há. O brasileiro tem talento para transformar qualquer moderação em evento olímpico. Bebe além da conta, canta além do tom, promete além do possível. Mas também há uma ética implícita na folia. Uma pedagogia da convivência. Aprende-se, na marra, a respeitar o espaço do outro, a rir quando pisam no seu pé, a pedir desculpa com confete na mão.
Dizem que o carnaval é alienação. Talvez seja também. Mas que bela alienação é essa que coloca na mesma avenida o operário, o empresário, o estudante, a professora e o aposentado, todos igualmente suados e desafinados. Se isso é fuga da realidade, é uma fuga curiosamente coletiva e solidária.
E há o humor. O brasileiro faz do carnaval um grande editorial cantado. As marchinhas ironizam governos, escândalos, promessas não cumpridas. O povo ri de si mesmo e dos poderosos com a mesma desenvoltura. É uma crítica política de sandália e serpentina. Ácida, mas dançante.
No fundo, o carnaval brasileiro não é apenas festa. É ensaio de país possível. Um país onde diferenças convivem, onde o riso desarma, onde a rua é espaço comum e não trincheira. Dura pouco, é verdade. Quatro dias passam rápido. Mas deixam uma lembrança incômoda: se conseguimos nos entender ao som de um surdo, talvez o problema não seja a impossibilidade de convivência, e sim a falta de música.
Quando a quarta-feira chega e o mundo volta a usar gravata, algo permanece. Uma memória corporal de que já estivemos juntos sem nos devorar. Talvez seja essa a grande herança do carnaval brasileiro: mostrar, com ironia e purpurina, que a democracia também pode sambar.
E se o ano insiste em nos dividir, fevereiro nos recorda, com otimismo barulhento, que ainda sabemos dançar lado a lado.



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