Confesso sem rodeios: eu tenho medo do fim do ano. Medo mesmo, daqueles que fazem o sujeito mudar de calçada quando vê uma loja montando árvore de Natal em outubro. Sim, outubro, pois basta a primeira guirlanda aparecer e eu começo a suar como quem está sendo interrogado pela Polícia Federal.

O problema não é exatamente o Natal enquanto evento teológico. Jesus sempre me pareceu um sujeito tranquilo, nada a ver com o caos que inventaram em volta da data. Meu pânico é dirigido a tudo que se pendura, pisca, canta, embrulha ou exala cheiro de panetone, essa massa indecisa. Quando vejo aquelas caixas vermelhas despontando nos supermercados, já sinto o colapso se aproximando. Panetone para mim é o aviso oficial do apocalipse: quando ele aparece, posso ter certeza de que minha paz interior acabou. E não venha ninguém me oferecer “com gotas de chocolate”, porque isso é só a versão gourmet da mesma tragédia.

Panetone com pingos de chocolate: versão gourmet da mesma tragédia

Mas a verdade é que o Natal é apenas o começo do meu suplício. O fim do ano inteiro me assombra. Dezembro, para mim, não é um mês: é uma sentença. Parece que o tempo reúne todos os boletos emocionais do ano e me empurra goela abaixo: promessas não cumpridas, dietas fracassadas, projetos abandonados, leituras esquecidas, e até aquele “vamos marcar” que nunca se realizou (aliás, esse “vamos marcar” já deveria ser considerado patrimônio imaterial da falsidade cordial brasileira).

E é aí que entra meu maior pânico: as ceias. Não importa se é Natal, Ano-Novo, ou um encontro que misteriosamente exige roupa branca. Eu sempre me sinto como uma criança sendo arrastada para tirar foto no colo do Papai Noel: aterrorizado, desconfortável, imaginando quanto tempo aquilo vai durar.

As ceias familiares, especialmente, me causam taquicardia. Não pelo menu, embora os sintomas piorem quando vejo ameixa na farofa, mas porque sei exatamente o que me espera: parentes competitivos, primos monotemáticos, gente animada demais, crianças possuídas por doses ilegais de açúcar e, claro, a pergunta mortal: “E quais os seus planos para o ano que vem?” Aí eu travo. Planos? Eu já acho audacioso planejar o que vou almoçar amanhã. Planejar o ano inteiro é exigir de mim uma espécie de soberba que não possuo. Respondo sempre com minha frase de defesa civil: “Ah, vamos vendo.” É suficientemente vaga para parecer esperançosa, e suficientemente nula para não comprometer meu futuro.

Mas nada, absolutamente nada, se compara ao terror da retrospectiva. Não a da televisão, embora aquela voz épica dizendo “os fatos que marcaram o ano” também me provoque urticária. Falo da retrospectiva interna, aquela auditoria moral que o fim do ano faz sem pedir autorização. O tempo, esse cobrador implacável, adora me lembrar que deixei para depois coisas que jamais deveriam ter sido deixadas. Isso me irrita profundamente.

“Minha casa vira ponto estratégico de guerra…”

E quando chega o Ano-Novo, aí sim atinge o auge do suplício. Moro em Copacabana, o que significa dizer que minha casa vira ponto estratégico de guerra. Não tenho culpa de morar perto da praia, mas, para muitos, isso me transforma automaticamente em “ponto de apoio”. De repente, minha casa se torna banheiro público, depósito de mochilas, de glitter, de bolsas penduradas “só um pouquinho”, de celulares carregando, de sandálias esquecidas. Marcam encontros no meu apartamento como se eu fosse uma espécie de sede administrativa da virada.

E eu, que mal consigo lidar comigo mesmo no dia 31, ainda tenho que fugir para sobreviver. Quando posso, desapareço. Já fiz blecaute doméstico completo: luzes apagadas, celular desligado, cortina fechada, silêncio absoluto. Já me esconderam mais vezes no Ano-Novo do que contrabandista se esconde em porto. E nem sempre funciona: tem sempre alguém persistente batendo à porta, chamando pelo meu nome como se eu estivesse devendo promessa de Iemanjá.

As pessoas não têm ideia do desespero que é tentar passar despercebido em Copacabana no Réveillon. É como tentar esconder uma baleia em uma banheira. Ainda assim, tento. Apago luzes, mal me movimento, nem roupa nova uso, esvazio a alma. Porque cada “posso só usar rapidinho o banheiro?” para mim soa como sentença de prisão perpétua.

Se me perguntarem por que tanto medo, eu digo: porque o fim do ano é cruel. Ele desmonta ilusões, esfrega espelhos, cobra dívidas, exige balanço, força alegria e ainda por cima obriga o sujeito a usar branco. Mas sobrevivo. Todos sobrevivemos. E gosto particularmente de janeiro, porque janeiro não exige nada. Janeiro não manda esperar nada. Janeiro não cobra retrospectiva, nem champanhe, nem ceia, nem abraço coletivo, nem banheiro emprestado.

Janeiro é o único mês em que o mundo fica cansado demais para me perturbar. E enquanto ninguém inventar o “espírito janeirino”, continuarei agradecido. Em silêncio. Trancado. Longe de panetones.