Há 20 Mestre Sebe lamentou perder a festança dos 60 anos da ungida matriarca e agora chora antecipadamente a comemoração pelos 80 anos da eterna jovem senhora
Para Isa Márcia
Escrever crônicas é sempre um risco. A gente começa com um assunto leve e termina mexendo em gavetas que julgava lacradas. Décadas atrás escrevi “Saudade de uma festa a qual não fui”. Era outra situação: a festa já tinha acontecido e eu, distante, soubera detalhes pelas notícias de um fato consumado. Agora é diferente. Não se trata de não ter ido. Trata-se de saber, com antecedência, que não irei.
Sei da data e do lugar: uma fazenda dessas que misturam cheiro de mato e memória. Sei dos convites animados no grupo, das combinações feitas com entusiasmo juvenil, embora os cabelos já tenham aprendido os tons do branco. Sei das presenças confirmadas, das piadas ensaiadas, dos abraços prometidos. E sei, com lucidez tranquila, que meu nome não estará entre os que chegarão.
Viver só me ensinou a cultivar pequenos rituais. Abro a correspondência devagar: separo contas, descarto propagandas e deixo as notícias para o fim, como quem espera o café. Sempre gostei do que já passou. O passado, quando lido, fica mais manso. Mas e agora? Nada aconteceu e eu já relato a festa antes que ela exista.
Além de mergulhar e saltar de paraquedas, Isa viaja para lugares como o deserto de Atacama no Chile
Antecipam-se imagens, combinam-se risos, confirmam-se presenças. E eu, que ainda nem deixei de ir, já sinto saudade, saudade de uma festa que não aconteceu. Pode isso? Pode?
Vejo os amigos chegando com sorrisos largos, presentes embrulhados, bengalas discretas e óculos cada vez mais necessários. A memória, generosa, dá nitidez aos rostos. Confirmo minha antiga teoria: a vida foi mais delicada com as mulheres da nossa geração. Elas aprenderam a dialogar com o espelho; nós, homens, fomos surpreendidos por ele. O calendário pousa com peso sobre nossos ombros, barriga, careca, passadas mais lentas. Isso enquanto elas parecem negociar melhor com o tempo.
Revejo o antigo chefe de fanfarra, hoje bisavô orgulhoso. O colega revolucionário, agora cidadão ponderado. O amigo nadador que troca comigo informações sobre cardiopatia. Dou uma espiadinha desconfiada nas namoradinhas que não tive e tornaram avós respeitáveis. O ex-aluno que alcançou a idade que julgávamos inalcançável. Alguns não me espantariam, pois os vejo com frequência; o olhar cotidiano amortece o impacto. Outros me surpreenderiam como susto bom, desses que nos fazem rir da própria incredulidade.
Haverá a novela silenciosa das histórias pessoais: casamentos que resistiram às tempestades; outros que se reinventaram; amores tardios; ausências sentidas com discrição. Em cada brinde haverá mais que celebração, haverá sobrevivência. Chegar até ali já é conquista suficiente.
E eu? Estarei em alto-mar. Talvez com um livro aberto, talvez diante da janela, escutando ruídos que vêm da memória. Não irei por compromissos inadiáveis, desses que a prudência aceita e o coração contesta. Não irei, mas estarei de outro modo. Percorrerei mentalmente as mesas, ocuparei uma cadeira imaginária, cumprimentarei cada um com o gesto invisível dos que pertencem, ainda que ausentes. Darei meu beijo na aniversariante que ri do tempo e o enfrenta com festa.
E não deixa de aquecer e praticar nos aniversários em petit comité
No dia seguinte, verei as fotos. Ampliarei detalhes na tela como quem decifra enigmas. Procurarei nos olhos dos amigos aquilo que não muda: o brilho antigo, a centelha juvenil que resiste às rugas. Confirmarei que o tempo não apaga, apenas reescreve.
Há algo de curioso nessa saudade antecipada. Ela não dói como perda, afaga como lembrança. É uma forma de estar sem estar, de participar pelo imaginário antes que o fato se cumpra. Talvez a idade ensine isso: presença não depende apenas do corpo. Pertencer é outra coisa.
Deixo, desde sempre, meu abraço aos que irão. Que riam alto, que brindem generosamente, que tirem muitas fotografias, provas frágeis de que estivemos juntos. E que reservem um lugar simbólico para este ausente assumido.
Meu Deus, quanta saudade de uma festa a qual não irei. Mas que, de algum modo, já vivi.
Enquanto as velas ainda não se acendem lá, acendeu-se aqui, em silêncio, uma pequena chama, dessas que iluminam sem fazer barulho.
Isa Márcia, te quero muito. Feliz aniversário, seu e meu. Nosso.


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