Para Marisa lajolo

A dúvida me ocorreu como ocorrem as melhores inquietações: por acaso e por provocação literária. A pergunta nasceu torta, inspirada naquele título grave do livro de Hemingway Por quem os sinos dobram? A resposta, como se sabe, é solene: dobram por todos nós. Mas e as crônicas? Escrevem-se para quem?

Os manuais de redação são categóricos: pense no “público-alvo”. A expressão já começa mal. Público eu entendo. Alvo me soa perigoso. Parece que o leitor deve ser atingido, abatido, convencido à força. Nos livros infantis, tudo bem: escreve-se para crianças, evita-se ironia excessiva, maneja-se o vocabulário com cuidado. Em textos acadêmicos, também: escreve-se para pares, usa-se bibliografia como quem exibe credenciais, cita-se até o vizinho se ele tiver publicado em revista indexada.

Mas e a crônica de jornal?

Ela sai ali, entre a notícia do trânsito caótico e a cotação do dólar. Não é tese, não é conto, não é editorial, sequer é notícia. É meio conversa de esquina, meio reflexão de fim de tarde. O jornal tem, sim, sua linha editorial. Isso ajuda. Há um público que escolhe aquele veículo, que compartilha certo horizonte cultural, certo modo de olhar o mundo. Mas mesmo assim, quem é essa criatura chamada “leitor médio”?

O leitor médio é um mito abstrato. Não existe. Existe a professora que lê no café da manhã, o advogado que folheia apressado no celular, o estudante que tropeça no texto porque clicou errado, a senhora que recorta a crônica e guarda na gaveta. Existe também aquele que não lê, mas opina e esse é fiel.

Quando escrevo uma crônica, imagino alguém? Às vezes um interlocutor abstrato, um “você” que me acompanha com paciência. Outras vezes escrevo para um amigo específico, que talvez nunca leia. Há dias em que escrevo para mim mesmo, o que é perigosíssimo: a gente tende a se achar espirituoso demais. O manual diria: defina seu público-alvo. Mas qual? O leitor que ri? O que se emociona? O que discorda? O que manda mensagem corrigindo vírgula? Porque há esse também, o guardião da norma culta, sempre vigilante, pronto a salvar a pátria da crase mal colocada.

A crônica tem algo de carta aberta. Não se dirige a especialistas, nem a iniciados. Ela se oferece. Quem quiser, entre. Quem não quiser, vire a página. Talvez seja esse seu encanto e seu risco: falar para todos e, no fim, atingir alguns (e errar muitos). Erramos, aliás, com frequência. Achamos que o texto é leve e alguém o lê como manifesto metafísico. Pensamos ter sido profundos e o leitor só percebe a piada. Julgamos ter sido claros e recebemos mensagens perguntando “mas afinal, o senhor é contra ou a favor?”. A crônica, coitada, não foi feita para resolver. Foi feita para sugerir, cutucar, acender uma pequena lâmpada.

Há ainda o fator surpresa. Às vezes escrevemos pensando nos adultos e somos adotados por adolescentes atentos. Outras vezes acreditamos ter feito graça e tocamos alguém enlutado. O texto ganha vida própria, emancipa-se do autor e vai morar onde quiser. A essa altura, o cronista já perdeu o controle, o que é saudável.

Talvez a resposta seja menos técnica e mais humana. Escreve-se para quem estiver disposto a partilhar alguns minutos de pensamento. Para quem aceita sentar ao lado do cronista nesse banco imaginário de praça. Não é preciso concordar. Basta ouvir.

No fundo, a crônica de jornal escreve-se para um “nós” impreciso. Um nós que inclui o autor e o leitor numa mesma condição: a de gente comum tentando entender o mundo sem a pretensão de esgotá-lo.

E se me perguntarem, com solenidade, “para quem o senhor escreve?”, talvez eu responda com ligeiro desvio literário: escrevo para quem os sinos dobrarem. Se alguém ouvir, já valeu. Se ninguém ouvir, ao menos o sino tocou — e eu me diverti escrevendo.