Depois que se passa dos 80, descobre-se uma estranha regularidade no mundo: a agenda da morte é pontual. Não há semana sem notícia, mês sem surpresa. A cada telefonema, a suspeita automática: “Quem foi desta vez?”. Forma-se uma espécie de clube involuntário, e nós, remanescentes, ficamos na antessala, mexendo no celular enquanto aguardamos convocação.
Entre meus livros prediletos está Cinco horas com Mario, de Miguel Delibes. A cena é genial: o morto no caixão, ouvindo a viúva falar sem parar. Sempre imagino o finado comentando mentalmente: “Se eu soubesse disso tudo, tinha morrido antes”. O morto, ali, torna-se espectador privilegiado dos vivos. E se existe palco onde os vivos se revelam sem maquiagem, é o velório. Machado de Assis entenderia perfeitamente.
Diante disso, elaborei um pequeno manual de sobrevivência estética e moral para essas ocasiões.
Primeira regra: vestimenta. Não é exagero pedir sobriedade. Bermudas e regatas não combinam com a solenidade do momento. O morto, quase sempre impecável no traje final, merece respeito visual. Nós, convidados, devemos buscar equilíbrio: discrição sem parecer posse de ministro do Supremo, nem madrinha de casamento atrasada.
Segunda regra: vá sozinho, se possível. Velório não é excursão. Em grupo, sempre surge o comentário lateral: “Falou mal do coitado a vida inteira e agora faz cara de sofrimento técnico”. A cerimônia exige concentração. Como prova de vestibular, qualquer cochicho compromete a compostura.
Terceira regra: não encare o defunto, isso o constrange. Respeito o protagonista, mas prefiro guardar sua imagem em movimento. Em vez disso, observo os vivos e invento histórias silenciosas para suportar o tempo: aquele senhor sisudo foi rival de pescaria; a senhora que chora demais alimentou amor platônico nos anos 50; o rapaz no celular talvez avise: “Chego já, estou num evento”. É exercício criativo eficaz contra a tragédia pura.
Quarta regra: evite o momento final. O fechamento do caixão é dramaticamente intenso. Prefiro a fase intermediária, quando a dor ainda está calibrando seu volume. O ápice coletivo exige preparo físico e emocional que nem sempre possuo. Também evito o cafezinho e as bolachinhas. Há algo de estranho em mastigar diante da finitude. Reconheço, contudo, que para alguns o café é âncora existencial. Sempre há quem critique a torra: “Está fraco”. Ora, meu amigo, o problema ali não é a bebida.
Fico longe das velas: tenho impulso quase infantil de apagá-las, como se estivesse diante de um bolo de aniversário invertido. Com as flores ocorre o mesmo: vontade súbita de reorganizar arranjos, impor estética minimalista. Contenho-me. Não fui contratado como decorador fúnebre.
Cuidado também com as frases feitas. “Está num lugar melhor” pode gerar debate teológico indesejado. “Foi descansar” transforma a vida em expediente bancário. Às vezes, o mais elegante é o silêncio acompanhado de um aperto de mão firme. O silêncio, nesse contexto, é a oratória mais nobre.
No fundo, o velório é ensaio sobre nós mesmos. Vamos despedir-nos, mas também conferir se ainda constamos na lista dos presentes. Cada cerimônia lembra que a procissão segue, e marchamos ora como acompanhantes, ora como futuros homenageados.
E, se Delibes estiver certo, talvez um dia estejamos ali, deitados, ouvindo comentários, avaliando roupas, anotando mentalmente quem exagerou no drama e quem compareceu apenas pelo café.
Minha última regra é simples: comporte-se no velório alheio como gostaria que se comportassem no seu. Porque, depois dos 80, nunca se sabe quando seremos promovidos a anfitriões definitivos do evento.

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