O 1º de abril é injustiçado. Tratam-no como o campeonato mundial da trapaça, quando na verdade ele é o padroeiro das pequenas gentilezas que sustentam a civilização. Sem a mentira social, essa engrenagem delicada que lubrifica as relações humanas, o mundo seria um campo minado de sinceridades fatais.

Imaginem, por exemplo, abolirmos o “muito prazer”. A pessoa é apresentada, estende a mão, sorri. Você pensa: “Não faço ideia de quem seja e, sendo honesto, preferia continuar assim”, mas diz “muito prazer”. E o mundo continua girando. Se dissesse a verdade “não faço questão alguma” precisaríamos de capacetes. O “apareça” é outra obra-prima da engenharia moral. Ninguém quer que o outro apareça. É uma fórmula poética que significa exatamente o contrário: “gosto de você na medida em que permanece eventual”, ainda assim, o “apareça” mantém pontes erguidas, portas simbólicas entreabertas, a fantasia de que somos todos expansivos e acolhedores.

O Dia da Mentira deveria homenagear essas frases que impedem guerras familiares. Pensemos no clássico: “Não pude ir porque sofri um acidente”. Acidente leve, naturalmente. Uma torção invisível, uma indisposição metafísica. A alternativa seria dizer: “Não fui porque preferi ficar de pijama vendo série e não aguento mais ouvir sobre o seu novo projeto de vida”. A pequena tragédia fictícia salva amizades reais. Há também o elogio estratégico: “Você está ótimo”. Está? Não exatamente, mas o comentário evita que a noite descambe para a análise dermatológica da humanidade. A mentira social é um investimento na paz pública.

Vivemos, é verdade, numa era que idolatra a sinceridade brutal. “Eu falo mesmo!” dizem, orgulhosos, os apóstolos da franqueza. Normalmente confundem honestidade com falta de freio. A mentira social, ao contrário, é um gesto de delicadeza. Ela diz: “Posso ser verdadeiro, mas escolho ser civilizado”. O “vamos marcar” é outra joia do repertório. Nunca se marca. Mas a promessa cria a ilusão de continuidade, esse fio invisível que impede que os encontros terminem como sentenças definitivas. “Vamos marcar” é um abraço em forma de calendário que jamais será aberto.

Imaginem um mundo sem essas ficções cordiais. Você encontra um conhecido na rua:

— Como vai?

— Cansado, ressentido e levemente decepcionado com as escolhas que fiz desde 1997.

Pronto. A cidade entraria em colapso emocional antes do almoço.

A mentira social é uma vacina contra a verdade em estado bruto. Ela dosa a realidade para que possamos digeri-la sem azia existencial. Quando alguém diz “adorei seu texto”, pode ter apenas gostado do título. Mas essa hipérbole afetiva encoraja, aquece, empurra o outro para frente. Às vezes, é a gasolina do entusiasmo. Não falo da mentira cruel, da fraude, da manipulação. Falo da mentira que funciona como guardanapo sobre a mancha. Daquela que impede que a sobremesa desande. Da mentira que diz “claro que não me incomoda” quando, sim, incomoda um pouco, mas não o suficiente para estragar o domingo.

O 1º de abril poderia ser o dia nacional do reconhecimento dessas pequenas ficções. Um brinde ao “foi ótimo te ver” dito com sinceridade moderada. Um aplauso ao “qualquer coisa, me liga”, que nunca será testado. São expressões que mantêm a engrenagem social funcionando sem ranger demais.

A verdade absoluta é um objeto cortante. A mentira social é a capa de veludo que impede o arranhão. Sem ela, jantares acabariam em tratados diplomáticos rompidos. Aniversários se tornariam assembleias de reclamações. Reencontros de escola exigiriam terapia coletiva na saída. No fundo, mentimos por compaixão logística. Para que o outro durma melhor. Para que a fila ande. Para que o elevador chegue ao térreo sem debates ontológicos.

Talvez o Dia da Mentira devesse se chamar Dia da Tolerância. Porque cada “muito prazer” é um acordo silencioso de convivência. Cada “apareça” é um aceno de civilidade. Cada “não pude ir” é uma almofada colocada entre expectativas e realidade. Que viva, portanto, o 1º de abril. Não o da pegadinha cruel, mas o da pequena ficção generosa. Aquela que sustenta o teatro delicado da convivência humana.

E se você achou essa crônica excelente, por favor, diga que adorou. Eu prometo acreditar.