No Brasil, acreditar no Papai Noel é tão arriscado quanto acreditar em promessa de campanha: você sabe que não devia, mas insiste. Aliás, Papai Noel talvez seja o único ente público que nunca se envolveu em escândalo ou, pelo menos, nunca foi pego. É resistente: sobrevive a inflação, câmbio, impeachment, retrocesso, progresso, calor de 42 graus e até a prática de “amigo invisível”. Mas há um detalhe essencial: imaginar que existe um Papai Noel genérico, padrão internacional, fabricado em linha de montagem no Polo Norte, é subestimar profundamente a criatividade brasileira. Aqui, onde até fila de banco vira performance artística, ninguém aceita um velhinho importado ditando regras natalinas.
O Brasil, esse laboratório continental de improviso, tropicalizou tudo que tocou: tango, pizza, Shakespeare, dieta mediterrânea e, evidentemente, Papai Noel. Não há como padronizar o bom velhinho em um país que muda de clima cinco vezes no mesmo dia. Por isso, cada região criou seu próprio representante natalino, versões locais, exageradas, mas absolutamente coerentes. Enquanto o Papai Noel mundial tenta entregar presentes ao planeta, os nossos atuam em circunstâncias bem mais complexas: trânsito, enchente, calor, caos urbano, gambiarra e aquela sensação constante de que tudo funciona apesar de ninguém saber como.
Comecemos pelo Papai Noel paulista, a figura mais próxima de um CEO que o Natal já produziu. Ele não acredita em magia, aposta em logística e autonomia de bateria. Em vez de renas, pilota uma scooter elétrica carregada na tomada do coworking, onde também guarda o notebook, o lanche fit e a ansiedade cronicamente controlada. O trenó paulista tem placa, passa na inspeção, estaciona em zona azul e faz rota otimizada por aplicativo, planilha e inteligência artificial. Seus presentes são práticos: planner, powerbank, garrafa térmica e voucher de terapia. Não diz “Ho, ho, ho”; diz “vamos agilizar, por favor”.
O Papai Noel carioca não entrega exatamente presentes: entrega clima, vibe, simpatia, autoestima e um pagodinho. Ele surge de chinelo, bermuda e gorro porque “faz parte do look”, troca o trenó por um Uber e chega cantando, abraçando, tirando selfie, pedindo like e fazendo stories com filtro de pôr do sol. Seus presentes são típicos: protetor solar, ingresso de bloco, de Fla-Flu. Ele te chama de “irmão”, te abraça suado e sai em busca de um buteco.
O Papai Noel mineiro chega… eventualmente. Ele disse que estava “indo”, mas isso significa três dias, duas conversas longas, um café com bolo e uma prosa filosófica sobre trem que só ele entende. Em vez de presentes, leva comida: doce de leite, pão de queijo, queijo canastra. Ele não pergunta se você quer; coloca no seu prato. Suas renas têm nome de tias e primas, e o trenó só sai quando todo mundo repetiu. O milagre mineiro é entregar tudo sem se precipitar. A pressa é inimiga da perfeição e da preguiça.
O Papai Noel do Sul é uma mistura de bom velhinho com tio opinativo de churrasco. Ele chega com vento lateral, chimarrão na mão e uma renazinha chamada Ventania. Presentes do Sul são práticos: sobretudo impermeável, carne para churrasco, cobertor reforçado. Ele não tem pressa, mas tem opinião sobre política, sobre clima, sobre carne, sobre qualquer coisa. Consegue entregar sob chuva, neblina e vento capaz de levar até esperança.
O Papai Noel amazônida dispensa trenó: usa voadeira. Suas “renas” são botos sindicalizados, com direitos garantidos. Ele enfrenta sol, chuva, várzea, mosquito gigante e a internet mais vacilante do país. Seus presentes são coerentes: repelente eficaz, chapéu de palha, filtro d’água e uma garrafa térmica. É o Papai Noel que mais trabalha, porque sua área de atuação é maior que muitos países. .
O Papai Noel baiano chega embalado em axé, dançando com as renas e dizendo “relaxe, meu rei, o Natal tá massa”. Ele entrega paz, boas energias, fitinha do Bonfim, sandálias novas, brisa do mar e uma paciência que só pode ter sido benzida em um terreiro. É o único que consegue atrasar sem irritar ninguém, aliás, se atrasar demais, vira só parte da experiência.
E, claro, o Papai Noel de Brasília, que não é pessoa física: é instituição. Seus presentes dependem de parecer, relatoria, emenda. Ele promete muito, entrega pouco e ainda chama coletiva para anunciar o mínimo. Seu trenó roda com verba suplementar e as renas mudam conforme composição da base aliada. Seus presentes são simbólicos: minuta de decreto, promessa de reforma, projeto “para avaliação”. A magia acaba quando diz que entrega “na próxima legislatura”.
No fim, cada Papai Noel brasileiro revela nossas manias, dores, espertezas e humores. Se faltou algum estado, fica a promessa de ampliar a lista dependendo do 13º e do limite do cartão.
O verdadeiro milagre não é ganhar presente: é sobreviver a dezembro. E isso nem Papai Noel dá conta sozinho.

