ATÉ A PRÓXIMA

Na manhã seguinte à euforia, o país sempre acorda com a sensação de que brincou mais do que devia. A quarta-feira de cinzas surge como fiscal silenciosa da festa, abrindo as janelas ainda cheias de confete e perguntando, com sobriedade desconfiada, quem vai pagar a conta do espetáculo?

Sobre a mesa dos poderes constituídos repousam projetos urgentes, redigidos entre um brinde e outro, propondo contribuições extraordinárias para cobrir as extravagâncias da véspera. Fala-se em ajuste solidário, em contribuição responsável, em pequena ampliação temporária que, como todo brilho de Carnaval, tende a durar mais do que o previsto. A festa foi coletiva, explicam. A conta também será.

A política, ainda com a máscara à vista, garante que tudo não passou de um desvio carnavalesco. Um entusiasmo contábil embalado pelo surdo da bateria fiscal. Agora começa a era da sobriedade, da harmonia entre os poderes, da justiça social finalmente materializada. O discurso é afinado. O problema é a bateria.

Um poder puxa o estandarte para um lado, outro ajusta o compasso para outro, e o terceiro decide que o ritmo oficial será redefinido conforme interpretação superveniente. Fala-se em equilíbrio institucional enquanto cada qual ensaia sua própria coreografia. A prometida harmonia parece bloco improvisado: todos juram tocar a mesma música, mas cada instrumento insiste em solo particular.

No centro da avenida ergue-se a grande alegoria da justiça social. Alta, iluminada, cheia de promessas cromadas. De longe, comove. De perto, revela estrutura de papelão reciclado de discursos antigos. Garante igualdade em suaves prestações tributárias. Afirma que o sacrifício será mínimo, quase simbólico. O contribuinte, protagonista involuntário do enredo, descobre que solidariedade é substantivo abstrato e débito bem concreto.

Mas a esperança brasileira não se limita ao Carnaval. Ela tem calendário próprio e vocação festiva. Mal a quarta-feira varre o excesso de purpurina e já se anuncia novo desfile de expectativas. Se não é samba, é hino. Se não é avenida, é arquibancada.

A cada Copa do Mundo, o país veste a camisa como quem veste futuro. A bola rola e, com ela, rolam frustrações e sonhos acumulados. Durante noventa minutos, não há desencontro entre poderes, nem debate sobre impostos. Há apenas a crença generosa de que um gol pode reorganizar o destino nacional. Vence-se um jogo e o amanhã parece mais leve. Perde-se e culpa-se o técnico, o juiz, a meteorologia. Nunca a estrutura do campeonato.

Passada a Copa, chegam as eleições, esse Carnaval cívico de palanques e jingles. Promessas desfilam em carros alegóricos de papel timbrado. A justiça social reaparece maquiada, rejuvenescida, jurando que agora é para valer. Bandeiras substituem serpentinas. O voto vira confete solene lançado na urna como quem lança desejo ao mar.

Promete-se diálogo maduro, responsabilidade fiscal, cooperação republicana. Nos bastidores, os ensaios seguem desencontrados. Um fala em austeridade com plumas discretas. Outro prefere expansão com lantejoulas estratégicas. O terceiro intervém para garantir que a coreografia respeite o figurino constitucional. E o público, sempre esperançoso, aplaude a estreia do novo espetáculo.

A quarta-feira de cinzas observa com ceticismo paciente. Sabe que a festa é necessária e que a esperança move multidões. Mas sabe também que fantasias não substituem alicerces, que justiça social não se constrói apenas com iluminação cênica e que harmonia entre poderes exige mais do que discursos coreografados.

Ainda assim, quando o próximo evento se anuncia, lá estamos nós outra vez. Prontos para pintar o rosto, erguer a bandeira, repetir o refrão e acreditar que desta vez será diferente. Porque, neste país, a esperança não aceita aposentadoria. Ela renasce como festa, como Copa, como eleição. E a quarta-feira de cinzas, resignada, continua perguntando se algum dia o futuro virá sem fantasia.