Netanyahu: em busca de um apartheid em Gaza e na Cisjordânia
O Estado de S. Paulo. 22 Fev 2026
Vamos parar de enrolar: o governo de extrema direita israelense, liderado pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, está cuspindo na cara dos EUA e dizendo que está chovendo. Não está chovendo. Bibi está enganando tanto Donald Trump quanto os judeus americanos. E, se os EUA deixarem ele se safar, somos os tolos.
Enquanto mantém Trump focado na ameaça nuclear e dos mísseis iranianos – que, embora reduzida, ainda é real e terá de ser tratada diplomaticamente ou militarmente –, Bibi está ameaçando os interesses mais amplos dos EUA no Oriente Médio, sem mencionar a segurança dos judeus em todo o mundo. De que maneira? Não posso expressar isso de forma mais sucinta do que Ehud Olmert, ex-premiê israelense.
“Um esforço violento e criminoso está em andamento para limpar etnicamente os territórios da Cisjordânia”, escreveu ele em um ensaio no Haaretz este mês. “Gangues de colonos armados perseguem, agridem, ferem e até matam palestinos que vivem lá. As violentas ações incluem queimar olivais, casas e carros; invadir casas; e agredir fisicamente as pessoas.” Ele continuou: “Os manifestantes, os terroristas judeus, atacam os palestinos com ódio e violência com um único objetivo: forçá-los a fugir de suas casas. Tudo isso é feito na esperança de que a terra fique então preparada para a colonização judaica, a caminho da realização do sonho de anexar todos os territórios.”
SUICÍDIO. As tentativas de Israel de anexar a Cisjordânia e permanecer permanentemente em Gaza – e negar aos palestinos direitos políticos em ambas as áreas – são tão moralmente imprudentes e demograficamente insanas quanto seria os EUA anexarem o México.
Se fossem apenas os israelenses que fossem prejudicados pela fantasia maluca de que 7 milhões de judeus israelenses podem controlar 7 milhões de árabes palestinos perpetuamente, eu poderia ficar tentado a dizer que, se os líderes de Israel querem cometer suicídio nacional, não posso impedi-los.
Mas os efeitos não se limitarão a Israel. Esse esforço messiânico tornará a Israel de hoje indistinguível da África do Sul do apartheid e terá implicações prejudiciais para os interesses americanos e a segurança dos judeus no mundo.
Se o governo de Netanyahu continuar nesse caminho, destruirá as instituições judaicas em todos os lugares, pois os membros da diáspora serão forçados a decidir se apoiam ou se opõem a um Israel semelhante ao apartheid. Isso acelerará a tendência iniciada pela devastação de Gaza, em que um número crescente de jovens democratas e republicanos nos EUA está se voltando contra Israel e contra os judeus em geral.
Pais judeus em todo o mundo logo estarão em uma posição que nunca imaginaram: vendo seus filhos e netos aprenderem como é ser judeu em um mundo onde o Estado judeu é um Estado pária.

Vítimas inocentes da desproporcional reação militar
Uma pesquisa do Instituto para o Entendimento do Oriente Médio, realizada pelo YouGov em novembro, descobriu que 51% dos eleitores republicanos com menos de 45 anos disseram que preferiam apoiar um candidato nas primárias presidenciais de 2028 que fosse a favor da redução das transferências de armas para Israel. Apenas 27% eram a favor de um candidato que aumentasse ou mantivesse o fornecimento de armas. Os candidatos democratas de hoje que não descrevem a guerra de Israel em Gaza como um genocídio enfrentam a ira dos jovens progressistas.
Na Conferência de Segurança de Munique, na semana passada, perguntaram à deputada Alexandria Ocasio-Cortez se ela achava que “o candidato democrata à presidência em 2028 deveria reavaliar a ajuda militar a Israel”. Ela respondeu: “A ideia de ajuda incondicional não faz sentido. Acho que isso possibilitou um genocídio em Gaza.”
TRAPACEIRO. Como disse no início, Netanyahu enganou Trump, assim como o lobby pró-Israel liderado pelo Comitê Americano-Israelense de Assuntos Públicos e outros líderes judeus americanos. Ele fez com que eles se concentrassem no Irã e ignorassem o fato de que tudo o que ele está fazendo em Gaza, na Cisjordânia e dentro de Israel vai prejudicar as relações entre os EUA e seus principais aliados no Oriente Médio, incluindo Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Turquia e Catar.
Sim, o Irã ainda é uma ameaça nuclear reduzida, mas real, depois que ataques aéreos israelenses e americanos atingiram suas instalações de enriquecimento nuclear e mísseis balísticos em junho. O país já reconstruiu grande parte de seu estoque de mísseis que poderiam causar danos reais a Israel se a guerra recomeçasse. Levo isso muito a sério.
Mas concentrar-se exclusivamente na ameaça externa do Irã ignora a ameaça interna que Netanyahu representa para Israel e sua posição como uma democracia baseada no estado de direito e uma sociedade unificada. Netanyahu está envolvido em um esforço de três anos, mesmo durante a guerra em Gaza, para realizar um golpe judicial que eliminaria a separação de poderes em Israel. O Irã é responsável por isso? Não.
MANOBRAS. O Irã tem se empenhado para expurgar ou enfraquecer a corajosa e independente procuradora-geral de Israel, Gali Baharav-Miara? Não, mas Bibi sim. Essa procuradora-geral, apoiada pela Suprema Corte, é a única coisa que impede novos ataques a um governo baseado em regras: o arquivamento do julgamento por corrupção de Netanyahu, bem como os esforços de Bibi para politizar as nomeações para o funcionalismo público e a isenção total do serviço militar para os judeus ultraortodoxos que o mantêm no poder.
O Irã bloqueou a criação de uma comissão de inquérito sobre a falha de inteligência e liderança que antecedeu à invasão do Hamas em 7 de outubro? Não, mas Bibi sim. Essa invasão não só ocorreu durante o mandato de Netanyahu, como foi causada, em parte, por seus esforços para provar ao mundo que Israel poderia ter paz com os Estados árabes sem fazer paz com os palestinos.
O Hamas se fortaleceu graças aos esforços contínuos de Netanyahu para sustentá-lo com dinheiro do Catar, de modo que a liderança palestina permanecesse sempre dividida entre Hamas, em Gaza, e Autoridade Palestina, na Cisjordânia. Assim, Bibi podia dizer a todos os presidentes dos EUA que lamentava não ter um parceiro palestino para negociar a paz.
O Irã nomeou aliados de Bibi, sem experiência prévia, para chefiar as organizações de segurança mais importantes de Israel – Shin Bet e Mossad? Não, foi Bibi quem o fez. O que levou Trump a exigir que o presidente de Israel, Isaac Herzog, perdoasse Netanyahu das acusações de corrupção? Certamente não foi o Irã.
E eis o que é verdadeiramente insano: Israel nunca foi tão temido militarmente e tão admirado tecnologicamente por seus vizinhos árabes, devido aos golpes que desferiu contra Irã, Hezbollah e Hamas. Se Netanyahu se engajasse em negociações para uma solução de dois Estados com a Autoridade Palestina, abriria caminho para a paz entre Israel e Arábia Saudita, Líbano, Síria e Iraque.
Todo o mundo muçulmano se abriria para Israel; o Irã ficaria isolado. A tecnologia israelense e a energia árabe criariam uma sinergia incrível para a era da inteligência artificial.
Isso seria uma enorme vantagem para os interesses dos EUA. Embora algumas complicações persistissem, o Oriente Médio estaria fazendo as pazes sob a égide americana. E a redução das tensões permitiria que Trump fizesse o que os últimos governos americanos almejaram: reduzir sua presença militar na região e concentrar seus esforços em contrabalançar a China na Ásia. Infelizmente, Bibi tem outras prioridades.
Ultraortodoxos de haredis inflamam Israel
As ambições de Netanyahu entram em conflito com o plano de 20 pontos de Trump, que prevê uma solução de dois Estados no futuro. O Conselho de Paz, criado por Trump, realizou sua reunião inaugural, mas Netanyahu não compareceu.
O ministro das Finanças de Bibi, Bezalel Smotrich, afirmou que, após as eleições no segundo semestre, em seu próximo mandato, “incentivará a migração” de palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
Enquanto isso, todos os principais aliados árabes dos EUA, fundamentais para o cessar-fogo em Gaza, divulgaram uma declaração condenando a decisão de Israel de designar terras na Cisjordânia como território israelense.
Quando Israel se envolve em anexação, descrita por grupos de direitos humanos como limpeza étnica em Gaza e na Cisjordânia, torna-se um dos principais contribuintes para o conflito permanente na região. Nada disso interessa aos EUA, mas é apreciado pelo Irã.
Os governantes islamofascistas de Teerã representam uma ameaça muito real para Israel. Eles lideram um regime terrível, cuja queda seria uma bênção para seu povo. Mas, por favor, poupem-me da bobagem de que o Irã é a única ameaça a Israel hoje.
O Irã não é a maior ameaça a Israel como democracia. Não é a maior ameaça às relações entre EUA e Israel. Não é a maior ameaça à unidade e à segurança dos judeus. Não é a razão pela qual tantos tecnólogos, engenheiros e médicos israelenses estão deixando o país. E não é a principal razão pela qual Israel está se tornando um apartheid. Esse título pertence ao governo de fanáticos messiânicos, nacionalistas árabes e israelenses ultraortodoxos retrógrados, formado por Netanyahu para se manter no poder
Thomas L. Friedman é colunista do The New York Times e ganhador de 3 orêmios Pulitzer


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