Quiumba, curimba, mojubá foram algumas expressões de umbanda do samba do Salgueiro em 2025
Ouvi, com a solenidade de sempre, os sambas de enredo do Rio. A cada temporada, eles retornam como tese cantada, como dissertação com tamborim, como tratado sociológico embalado por surdo. O calendário muda; a vocação permanece.
Os enredos parecem sempre decididos a resolver o Brasil em três noites. Há escola explicando a formação da pátria, outra celebrando biomas ameaçados, uma terceira revisitando personagens históricos que, até então, dormiam tranquilos nos livros e como negar a saga dos negros ou a presença indígena? O curioso é que cada samba começa como projeto pedagógico e termina como declaração de amor à própria comunidade. Entre a introdução e o refrão, o país inteiro é reinterpretado.
O Rio, naturalmente, canta a si mesmo. É um narcisismo rítmico, embalado por bateria afinada. O morro vira epopeia, a avenida vira passarela mitológica, o trabalhador vira herói lírico. Se a história oficial às vezes é árida, o samba a irriga com metáforas. Datas ganham cadência, personagens desfilam com plumas e o passado aprende a sambar.
Há uma constante fascinante: o samba de enredo transforma qualquer tema em emoção coletiva. Pode falar de impérios, de ciência, de religiosidade, de minorias esquecidas ou de florestas em perigo. Tudo cabe em versos que precisam ser suficientemente claros para que a arquibancada inteira cante junto e suficientemente sofisticados para convencer jurados atentos à métrica e à harmonia. É democracia sob julgamento técnico.
Alguns sambas optam pelo tom épico. O Brasil surge como nação destinada à grandeza, povo criativo que supera adversidades com sorriso e ginga. A letra avança como se estivesse redigindo uma Constituição alternativa, onde a palavra “esperança” rima com “confiança” e “mudança”. O carnaval, nesses momentos, funciona como Ministério da Utopia.
Outros preferem a via poética. Luas douradas, mares que sussurram, corações que batem no compasso da bateria. A escola vira entidade quase mística, mãe generosa, pátria particular. O exagero não é defeito; é método. No carnaval, ama-se em voz alta, com direito a modulação e subida de tom.
Também há os enredos que assumem postura crítica. Revisam a história pelo avesso, dão protagonismo a quem foi esquecido, ironizam versões oficiais. O samba, que muitos tratam como mero entretenimento, revela-se instrumento de leitura do país. Entre uma alegoria e outra, passa uma aula inteira de revisão histórica, com mais ritmo do que rancor.
É curioso notar como cada escola se apresenta como guardiã da verdadeira identidade nacional. Todas reivindicam autenticidade. Todas se dizem porta-vozes do Brasil profundo. E, no fim, temos vários “Brasis” desfilando lado a lado, às vezes em contraste, às vezes em harmonia. O que poderia ser conflito torna-se espetáculo compartilhado.
Do ponto de vista musical, o samba de enredo é uma engenharia delicada. Precisa de refrão fácil, mas não simplório. Precisa de melodia que suba na hora exata, convocando o público a cantar como se estivesse assinando um manifesto. Se a bateria falha, a magia se dispersa. Se a comunidade não compra a letra, o enredo desmorona. É arte coletiva em estado bruto.
Há quem diga que todo samba de enredo soa parecido. Talvez. Mas experimente ficar indiferente quando a bateria entra em uníssono e a avenida inteira vibra. A repetição é parte do encanto. O coração também repete batidas e ninguém o acusa de falta de originalidade.
O mais interessante é perceber que, ano após ano, o carnaval insiste em propor um país possível. Um país que reconhece suas dores, mas escolhe cantá-las. Que revisita seu passado, mas com direito a fantasia e iluminação especial. Que discute política sem abandonar o ritmo.
Enquanto o restante do calendário nos divide em debates inflamados, a Sapucaí nos convida a cantar a mesma letra. Cada um desafina à sua maneira, é verdade, mas o coro coletivo suaviza as diferenças. O samba-enredo cria uma rara experiência de simultaneidade: milhares de vozes repetindo os mesmos versos, ainda que por motivações distintas.
Talvez resida aí sua força histórica. O samba de enredo não é apenas trilha sonora de desfile; é crônica anual ou permanente do que imaginamos ser. Ele transforma tese em festa, crítica em poesia, memória em espetáculo.
Se o Brasil real é cheio de ruídos, o Brasil cantado na avenida busca harmonia. Nem sempre alcança, mas insiste. E essa insistência, embalada por surdos e tamborins, atravessa décadas. A cada carnaval, renovamos o pacto: contar nossa história em tom maior, com final apoteótico e a esperança, sempre ela, rimando com evolução.


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