{"id":7791,"date":"2014-02-25T15:34:32","date_gmt":"2014-02-25T18:34:32","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/?p=7791"},"modified":"2014-03-15T12:28:50","modified_gmt":"2014-03-15T15:28:50","slug":"politico-preso-nao-e-preso-politico-nem-vaquinha-com-dinheiro-publico-e-solidariedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/politico-preso-nao-e-preso-politico-nem-vaquinha-com-dinheiro-publico-e-solidariedade\/","title":{"rendered":"Pol\u00edtico preso n\u00e3o \u00e9 preso pol\u00edtico, nem vaquinha com dinheiro p\u00fablico \u00e9 solidariedade"},"content":{"rendered":"<p>Fui preso pol\u00edtico do dia 1\u00ba \u00a0de outubro de 1969 ao dia 22 de dezembro de 1974, mais de cinco anos, por lutar contra a ditadura civil-militar que assolava o pa\u00eds.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<div>Na cadeia, a solidariedade sempre falou mais alto entre os presos pol\u00edticos, apesar de alguns poucos recalcitrantes que insistiam em se manter fora do coletivo, ou, pior ainda, tentar levar alguma vantagem. Coisas da vida e do ser humano. O dinheiro arrecadado com o resultado do trabalho manual produzido por n\u00f3s era vendido por nossos familiares e destinado \u00e0s fam\u00edlias mais necessitadas.Em 1968, o movimento estudantil era movido pela solidariedade de artistas e intelectuais que nutriam simpatia por aquela juventude que enfrentava a pol\u00edcia nas ruas para denunciar a falta de liberdade. O saudoso f\u00edsico e cr\u00edtico de arte M\u00e1rio Schenberg, considerado o aluno mais brilhante da Albert Einstein, doou muitas obras de arte para serem leiloadas para arrecadar recursos para a UNE &#8211; Un\u00e3o Nacional dos Estudantes. Tamb\u00e9m n\u00e3o foram poucos os espet\u00e1culos de teatro e m\u00fasica que destinaram suas bilheterias para aquela juventude rebelde. A palavra chapa-branca n\u00e3o fazia parte do nosso vocabul\u00e1rio. Os tempos eram outros.Voltando \u00e0 pris\u00e3o, n\u00f3s presos pol\u00edticos nunca admitimos que nos confundissem com presos comuns. Recusamos uniformes e exigimos hor\u00e1rios diferenciados para recebermos nossas visitas e para tomar banho de sol. Essa resist\u00eancia incomodava as autoridades. Tentaram impor sua ordem por todos os meios. At\u00e9 que resolveram nos separar, nos realocando em v\u00e1rios pres\u00eddios.O isolamento poderia facilitar nosso aniquilamento f\u00edsico. Antes que os beleguins do regime o fizessem, iniciamos uma greve de fome. Foram tr\u00eas. Optamos por uma t\u00e1tica que permitia manter sob nosso controle o direito \u00e0 vida ou \u00e0 morte. A greve de fome mais longa durou 33 dias. O custo foi alto. Mas sobrevivemos.<\/p>\n<p>No \u00faltimo domingo, 23, a colunista Monica Bergamo, da Folha de S\u00e3o Paulo, publicou confid\u00eancias do mensaleiro condenado Jos\u00e9 Dirceu. Bergamo \u00e9 porta-voz informal do PT e em particular do ex-ministro. Na sua coluna ela faz um \u201crelato sobre a rotina do ex-ministro Jos\u00e9 Dirceu no pres\u00eddio da Papuda\u201d.<\/p>\n<p>Bergamo conta que \u201cDirceu est\u00e1 preocupado. Caso a tese de quadrilha seja confirmada, ele corre o risco de passar 22 horas por dia dentro de uma cela. Ter\u00e1 direito a apenas duas horas de banho de sol. \u00c9 assim a rotina de boa parte dos presos em regime fechado na Papuda\u201d. Dirceu \u00e9 um preso comum. Alguma d\u00favida?<\/p>\n<p>E mais, Bergamo revela que ele \u201cpassou a sair de tr\u00e1s das grades por algumas horas, de manh\u00e3 e \u00e0 tarde. No come\u00e7o, fazia a limpeza do p\u00e1tio. Varria e lavava. Colocava defeito na, digamos, infraestrutura: a vassoura que usava era velha, com os fios retorcidos. N\u00e3o dava para limpar direito os cantos do ch\u00e3o, que acabava sempre um pouco sujo\u201d.<\/p>\n<p>Os presos pol\u00edticos durante a ditadura n\u00e3o admitiam a possibilidade de \u201ctrabalhar\u201d na cadeia, para a cadeia. Nem durante o Estado Novo e muito menos sob a ditadura civil militar p\u00f3s 1964. Sujeitar-se \u00e0s regras do sistema penitenci\u00e1rio significaria admitir ser preso comum. N\u00f3s \u00e9ramos presos pol\u00edticos e ponto. N\u00e3o importa que fosse a Ilha Fern\u00e3o de Noronha ou a Ilha Grande ou o Carandiru. Ali, ningu\u00e9m havia feito nada para locupletar-se, como o fez Jos\u00e9 Dirceu, Del\u00fabio, Jo\u00e3o Paulo e Henrique Pizzolato.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, entendo as pessoas de bom car\u00e1ter que contribu\u00edram para a tal vaquinha, feita para pagar a multa imposta pela Justi\u00e7a aos pol\u00edticos presos. \u00c9 um comportamento semelhante ao do Genoino que \u201capenas assinou o contrato\u201d com o banco para \u201cfinanciar\u201d o partido. Quem contribuiu com a vaquinha petista ajudou a lan\u00e7ar uma nuvem de fuma\u00e7a sobre a origem daqueles recursos. O que sustenta grande parte dos doadores tem origem p\u00fablica porque proveem de servidores em cargos de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>A tal vaquinha n\u00e3o passa de uma forma de coletar dinheiro p\u00fablico de forma indireta. Por\u00e9m, h\u00e1 os que batem no peito quando revelam que contribu\u00edram com R$ 100, tal qual Genoino fez quando era presidente do partido e assinou contratos banc\u00e1rios fraudulentos, confiante na impunidade. O cidad\u00e3o honesto acaba se igualando com o funcion\u00e1rio petista que fez uma contribui\u00e7\u00e3o de cerca de R$ 600 mil.<\/p>\n<p>Os incautos de hoje ter\u00e3o muito a lamentar quando vier \u00e0 tona a lama ainda invis\u00edvel aos mais ing\u00eanuos. Aguardem.<\/p>\n<p>Paulo de Tarso Venceslau<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui preso pol\u00edtico do dia 1\u00ba \u00a0de outubro de 1969 ao dia 22 de dezembro de 1974, mais de cinco anos, por lutar contra a &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7798,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-7791","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagem"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7791","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7791"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7791\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7837,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7791\/revisions\/7837"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7798"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7791"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7791"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7791"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}