{"id":22103,"date":"2026-09-06T09:08:22","date_gmt":"2026-09-06T12:08:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=22103"},"modified":"2026-09-06T09:08:22","modified_gmt":"2026-09-06T12:08:22","slug":"samba-obediencia-e-deboche-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/samba-obediencia-e-deboche-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"SAMBA: OBEDI\u00caNCIA E DEBOCHE (JC Sebe Bom Meihy))"},"content":{"rendered":"<p>Muito antes de qualquer livro did\u00e1tico discutir o que significava &#8220;ser brasileiro&#8221;, essa pergunta j\u00e1 vinha sendo respondida, todos os dias, nas rodas de samba, nos morros e nos sub\u00farbios cariocas. A m\u00fasica popular funcionou como uma verdadeira sala de aula sem paredes: ensinava cantando, repetindo, respondendo \u2014 e foi assim que o samba se tornou um dos primeiros grandes espa\u00e7os de negocia\u00e7\u00e3o da identidade nacional brasileira.<\/p>\n<p>O exemplo mais claro desse processo \u00e9 o debate travado, em 1933, entre Wilson Batista e Noel Rosa. Wilson lan\u00e7ou &#8220;Len\u00e7o no Pesco\u00e7o&#8221;, exaltando com orgulho a figura do malandro: chap\u00e9u de lado, navalha no bolso, vida sem hor\u00e1rio nem patr\u00e3o. Noel respondeu com &#8220;Rapaz Folgado&#8221;, defendendo o trabalhador humilde como representante mais digno do povo. A r\u00e9plica se estendeu por outras composi\u00e7\u00f5es, e o pa\u00eds acompanhou, pelo r\u00e1dio e pelas rodas, aquele di\u00e1logo cantado. O debate n\u00e3o aconteceu em jornais ou universidades, mas num c\u00f3digo que alcan\u00e7ava justamente quem a escola formal n\u00e3o alcan\u00e7ava \u2014 o trabalhador sem instru\u00e7\u00e3o, o morador do morro. O p\u00fablico aprendia, cantando os dois lados, que existiam formas diferentes e leg\u00edtimas de ser brasileiro, e que essas vis\u00f5es podiam conviver e at\u00e9 se misturar \u2014 tanto que o pr\u00f3prio Noel viria depois a compor sambas com simpatia pela malandragem.<\/p>\n<p>Esse debate horizontal n\u00e3o permaneceu restrito \u00e0s rodas de samba: foi absorvido pelo poder pol\u00edtico. Get\u00falio Vargas e o aparato de propaganda do Estado Novo perceberam que a m\u00fasica popular j\u00e1 era o espa\u00e7o em que o povo discutia sua pr\u00f3pria identidade, e trataram de entrar nessa conversa, falando a mesma l\u00edngua que Noel e Wilson haviam consolidado. Nasceu assim a imagem do &#8220;sorriso do velhinho&#8221;: um Get\u00falio bonach\u00e3o, que parecia curtir o samba como parceiro de roda, mesmo perseguindo, na pr\u00e1tica, a malandragem que boa parte desse samba celebrava. O Estado escolheu como identidade oficial o lado do trabalhador digno, e &#8220;O \u00d4nibus de S\u00e3o Janu\u00e1rio&#8221;, de Noel Rosa \u2014 em que o eu l\u00edrico corre para n\u00e3o faltar ao trabalho porque &#8220;o Brasil precisa dele&#8221; \u2014 tornou-se quase um hino do trabalhismo varguista, prova cantada de que o povo j\u00e1 desejava ser o cidad\u00e3o disciplinado que o Estado Novo queria formar.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/noelrosa-wilsonbatista.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22105\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/noelrosa-wilsonbatista-450x305.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/noelrosa-wilsonbatista-450x305.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/noelrosa-wilsonbatista-300x204.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/noelrosa-wilsonbatista.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Noel Rosa e Wilson Batista: pol\u00eamica sem fim<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Seria, por\u00e9m, um equ\u00edvoco enxergar nisso apenas domestica\u00e7\u00e3o. O samba, desde o in\u00edcio, carregava tamb\u00e9m uma for\u00e7a que escapava ao controle oficial: a capacidade de rir do poder e manter viva a voz do malandro e do exclu\u00eddo. O pr\u00f3prio Wilson Batista seguiu compondo sambas que reafirmavam a malandragem n\u00e3o como pregui\u00e7a, mas como recusa a um mundo do trabalho que, para a popula\u00e7\u00e3o negra e pobre do Rio, significava explora\u00e7\u00e3o e nenhuma mobilidade social. Cantar o malandro era, em certa medida, denunciar que a promessa do &#8220;trabalho digno&#8221; n\u00e3o valia igualmente para todos.<\/p>\n<p>Mesmo Noel Rosa, tantas vezes lido como porta-voz da ordem, produzia em sambas como &#8220;Feiti\u00e7o da Vila&#8221; ironia afiada contra a hipocrisia da elite e simpatia por quem vivia \u00e0 margem das conven\u00e7\u00f5es burguesas \u2014 prova de que o samba nunca foi um bloco monol\u00edtico a servi\u00e7o de uma \u00fanica mensagem. Essa tens\u00e3o se intensificaria depois: enquanto o Estado tentava oficializar um samba &#8220;limpo&#8221;, o morro seguia produzindo, em paralelo, uma m\u00fasica de cr\u00edtica direta \u00e0 pol\u00edcia, \u00e0 fome e ao preconceito racial, tradi\u00e7\u00e3o que passaria por Geraldo Pereira, Z\u00e9 K\u00e9ti e Cartola, e explodiria d\u00e9cadas depois em Bezerra da Silva, recuperando o malandro como sujeito leg\u00edtimo de den\u00fancia contra a viol\u00eancia e a hipocrisia da lei.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Getulio-bonachao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22106\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Getulio-bonachao-338x450.jpg\" alt=\"\" width=\"338\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Getulio-bonachao-338x450.jpg 338w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Getulio-bonachao-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Getulio-bonachao-768x1024.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Getulio-bonachao.jpg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Get\u00falio bonach\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O samba, assim, funcionou nos dois sentidos ao mesmo tempo: como espa\u00e7o que o poder tentou capturar e como trincheira que o povo jamais deixou de ocupar. Ensinou o Brasil a se reconhecer, mas tamb\u00e9m ensinou o Brasil a duvidar de si mesmo \u2014 questionando, com a mesma leveza mel\u00f3dica usada para agradar o Estado, exatamente aquilo que esse Estado queria que fosse aceito sem contesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito antes de qualquer livro did\u00e1tico discutir o que significava &#8220;ser brasileiro&#8221;, essa pergunta j\u00e1 vinha sendo respondida, todos os dias, nas rodas de samba, &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22104,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-22103","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22103","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22103"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22103\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22107,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22103\/revisions\/22107"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22104"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22103"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22103"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22103"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}