{"id":22097,"date":"2026-09-02T19:55:21","date_gmt":"2026-09-02T22:55:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=22097"},"modified":"2026-09-02T19:56:14","modified_gmt":"2026-09-02T22:56:14","slug":"o-circo-banco-master-como-tragedia-grega-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-circo-banco-master-como-tragedia-grega-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O CIRCO BANCO MASTER COMO TRAG\u00c9DIA GREGA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>para Paulo de Tarso Venceslau<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A vida de cronista deveria vir com garantia de f\u00e1brica e cl\u00e1usula de insalubridade. O acordo, em tese, \u00e9 simples: escrever textos leves, temperado com ironia elegante sobre as pequenas mazelas humanas, algo perfeitamente descart\u00e1vel, para ser lido enquanto se mastiga o p\u00e3o com manteiga e esquecer antes de a primeira x\u00edcara de caf\u00e9 esfriar.<\/p>\n<p>Estava eu cumprindo essa miss\u00e3o com usual empenho. Livre, por uma vez, da picaretagem pol\u00edtica, entreguei ao editor um texto mais saboroso sobre a hist\u00f3ria do samba. A resposta veio sem poesia: o sujeito praticamente me mandou escrever de dentro de uma lona de circo pegando fogo. Guardei o samba na gaveta. Entrou em cena o Caso Master.<\/p>\n<p>E o circo pegou fogo de verdade, porque al\u00e9m de cronista carrego o v\u00edcio incur\u00e1vel de ser historiador. O historiador \u00e9 o chato treinado para olhar qualquer vazamento &#8220;bomba&#8221; na imprensa e perguntar: quem encomendou isso, a que horas e com que interesse? Na hist\u00f3ria, a &#8220;coincid\u00eancia&#8221; jornal\u00edstica costuma ter nome, CPF e endere\u00e7o fixo. Tentar escrever com leveza sobre o Banco Master \u00e9 como tentar dan\u00e7ar valsa numa gafieira: os passos n\u00e3o alcan\u00e7am o ritmo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/moraes-e-vorcaro-jpeg-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22099\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/moraes-e-vorcaro-jpeg-1-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/moraes-e-vorcaro-jpeg-1-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/moraes-e-vorcaro-jpeg-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/moraes-e-vorcaro-jpeg-1.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o republicanas uniram o magistrado e o banqueiro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Tudo nesse enredo tenta se fantasiar de trag\u00e9dia grega, ainda que a escala seja modesta. Daniel Vorcaro est\u00e1 longe de ser um Agam\u00eamnon, e o Banco Central se parece mais com um cart\u00f3rio burocr\u00e1tico do que com o Or\u00e1culo de Delfos. Mas a estrutura, essa sim, \u00e9 puramente hel\u00eanica: uma verdadeira trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Primeiro vem a <em>hybris<\/em>, a soberba cl\u00e1ssica: o sujeito que se acha esperto demais para um enredo de crentes. Em poucos anos, o \u201cher\u00f3i\u201d montou um banco que prometia lucros m\u00e1gicos, adquiria precat\u00f3rios como quem compra banana e distribu\u00eda sorrisos pela Faria Lima. Parecia genuinamente convencido de que as leis da f\u00edsica financeira n\u00e3o se aplicavam ao seu jeitinho. A perip\u00e9cia, o tombo espetaculoso, veio quando a Pol\u00edcia Federal o interceptou tentando deixar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas a melhor parte do teatro n\u00e3o \u00e9 o her\u00f3i caindo da ribalta. \u00c9 o Coro. Nas pe\u00e7as antigas, o Coro entrava em cena para anunciar verdades e avisar que a casa ia desabar. No Caso Master, o Coro se disfar\u00e7a de &#8220;vazamento seletivo&#8221;. Um print aqui, um peda\u00e7o de dela\u00e7\u00e3o ali, um depoimento que escorre por um duto misterioso e des\u00e1gua no jornalismo no instante exato em que mais interessa a algu\u00e9m. A situa\u00e7\u00e3o chegou a tal ponto que o diretor do BC, Ailton de Aquino, admitiu \u00e0 PF que a autarquia vivia um ambiente de vazamentos t\u00e3o sistem\u00e1ticos que a c\u00fapula precisou se recolher numa esp\u00e9cie de conclave secreto para deliberar sem que a decis\u00e3o virasse muni\u00e7\u00e3o na pra\u00e7a.<\/p>\n<p>A ironia da trag\u00e9dia moderna \u00e9 essa: o vazamento nasce de m\u00e3o bem calculada \u2014 investigador, advogado, pol\u00edtico ou assessor em p\u00e2nico \u2014, mas, assim que ganha a rua, vira um c\u00e3o sem dono. Nikolas Ferreira reclamou de ter virado &#8220;ref\u00e9m&#8221;; o PT temeu que o estilha\u00e7o acertasse sua janela; o boslonarismo assumiu a fantasia do \u201cproblema deles\u201d; o grupo Prerrogativas viu ali um retorno ao auge da Lava Jato. A plateia inteira assiste apavorada, \u00e0 espera da pr\u00f3xima pedrada, temendo ser a pr\u00f3xima a cair.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/tragedia-classica-grega.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22100\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/tragedia-classica-grega-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/tragedia-classica-grega-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/tragedia-classica-grega-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/tragedia-classica-grega-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/tragedia-classica-grega.jpg 810w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A catarse foi substitu\u00edda por um campeonato de vingan\u00e7a<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na Gr\u00e9cia antiga, o sofrimento do protagonista trazia catarse \u2014 a purifica\u00e7\u00e3o da <em>polis<\/em>. Aqui, n\u00e3o. No circo do Banco Master, o que resta \u00e9 apenas um campeonato de vingan\u00e7a: a cada vazamento responde-se com um contra-vazamento, enquanto assistimos \u00e0 cena sabendo que o desfecho j\u00e1 foi selado nos por\u00f5es de Bras\u00edlia, muito antes de o primeiro panfleto ser impresso.<\/p>\n<p>Se existe um Or\u00e1culo nessa hist\u00f3ria, ele n\u00e3o fala por enigmas nem solta fuma\u00e7a divina: opera por mensagem an\u00f4nima, com imagem em anexo, e sabe com precis\u00e3o cir\u00fargica qual podrid\u00e3o conv\u00e9m revelar e qual conv\u00e9m deixar apodrecer no escuro. \u00c9 a \u00fanica profecia que essa trag\u00e9dia sem coro nem catarse ainda consegue cumprir: a de que, na polis brasileira, a verdade nunca vem para purificar: vem para acertar contas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>para Paulo de Tarso Venceslau A vida de cronista deveria vir com garantia de f\u00e1brica e cl\u00e1usula de insalubridade. 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