{"id":22067,"date":"2026-08-16T08:05:15","date_gmt":"2026-08-16T11:05:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=22067"},"modified":"2026-08-16T08:05:15","modified_gmt":"2026-08-16T11:05:15","slug":"as-bundas-de-drummond-dez-anos-depois-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/as-bundas-de-drummond-dez-anos-depois-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"AS BUNDAS DE DRUMMOND, DEZ ANOS DEPOIS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;No m\u00e1rmore de tua bunda gravei o meu epit\u00e1fio.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Agora que nos separamos, minha morte j\u00e1 n\u00e3o me pertence.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Tu a levaste contigo.&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 quase uma d\u00e9cada escrevi uma cr\u00f4nica publicada aqui no Contato provocando o leitor a enfrentar, sem pudor, os versos er\u00f3ticos de Carlos Drummond de Andrade reunidos em &#8220;O amor natural&#8221;. Reli aquele texto outro dia e me vi outro: n\u00e3o porque tenha mudado de opini\u00e3o sobre Drummond, mas porque mudei de olhar. O tempo \u2014 e o pr\u00f3prio debate p\u00fablico sobre corpo, desejo e representa\u00e7\u00e3o \u2014 me obriga a reescrever, n\u00e3o a me desdizer.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/carlos-drummond-de-andrade-jpeg.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22070\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/carlos-drummond-de-andrade-jpeg-346x450.jpg\" alt=\"\" width=\"346\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/carlos-drummond-de-andrade-jpeg-346x450.jpg 346w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/carlos-drummond-de-andrade-jpeg-231x300.jpg 231w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/carlos-drummond-de-andrade-jpeg.jpg 461w\" sizes=\"auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Carlos Drummond de Andrade<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, apoiei-me em Marilena Chau\u00ed para distinguir erotismo de pornografia, e ainda sustento a distin\u00e7\u00e3o. Mas hoje acrescento uma inquieta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tinha: toda essa celebra\u00e7\u00e3o do corpo feminino fragmentado \u2014 a bunda, as coxas, os seios \u2014 vem sempre da voz de um homem que observa, nomeia e goza. \u00c9 a po\u00e9tica do olhar masculino em sua forma mais l\u00edrica, e isso n\u00e3o a desqualifica, mas pede contextualiza\u00e7\u00e3o. Drummond escreveu para a gaveta, com medo, \u00e9 verdade; havia ali um pudor genu\u00edno, quase infantil, contrastando com a ousadia do vocabul\u00e1rio. Hoje reconhe\u00e7o nesse contraste n\u00e3o apenas recato de \u00e9poca, mas tamb\u00e9m uma forma de poder: o poeta podia guardar o que quisesse, decidir quando e como revelar o pr\u00f3prio desejo, prerrogativa historicamente negada \u00e0s mulheres que ele descrevia.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o anula a beleza dos versos. Ainda me arrepio com &#8220;Bundamel bundalis bundacor bundamor&#8221;, essa alitera\u00e7\u00e3o juguetona que transforma anatomia em m\u00fasica. Mas hoje ponho Drummond ao lado de outras vozes que tamb\u00e9m trataram o corpo com a mesma ousadia, por\u00e9m a partir de outro lugar de fala. Penso em Hilda Hilst, contempor\u00e2nea de Drummond, cuja obra eroticamente expl\u00edcita \u2014 &#8220;Do Desejo&#8221;, &#8220;Buf\u00f3licas&#8221; \u2014 foi por d\u00e9cadas empurrada para as margens da cr\u00edtica, tratada como exc\u00eantrica ou menor, enquanto os versos guardados de Drummond, quando finalmente publicados, ganharam pref\u00e1cio elogioso e recep\u00e7\u00e3o deslumbrada. A mesma ousadia tem\u00e1tica recebeu tratamentos radicalmente diferentes conforme o g\u00eanero de quem escrevia. Penso tamb\u00e9m em Ad\u00e9lia Prado, que erotiza o cotidiano dom\u00e9stico com uma naturalidade que dessacraliza tanto o sexo quanto a santidade, e em Ana Cristina Cesar, cuja escrita do corpo \u00e9 fragment\u00e1ria, nervosa, sem a serenidade contemplativa de Drummond diante da &#8220;bunda que se diverte por conta pr\u00f3pria&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a-bunda.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-22069\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a-bunda-254x450.jpg\" alt=\"\" width=\"254\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a-bunda-254x450.jpg 254w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a-bunda-169x300.jpg 169w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a-bunda.jpg 283w\" sizes=\"auto, (max-width: 254px) 100vw, 254px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;A bunda \u00e9 a bunda,<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>redunda&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Reconhe\u00e7o ainda que minha leitura de 2016 talvez tenha sido complacente demais com a ideia de que arte er\u00f3tica est\u00e1 automaticamente acima de julgamento moral. Sustento que sim, a arte pode e deve tratar do corpo e do prazer sem culpa. Mas &#8220;acima de julgamento&#8221; n\u00e3o significa &#8220;acima de leitura cr\u00edtica&#8221;. Podemos admirar a musicalidade de Drummond tratando a bunda como personagem aut\u00f4noma \u2014 &#8220;a bunda \u00e9 a bunda \/ redunda&#8221; \u2014 e, ao mesmo tempo, notar que essa autonomia \u00e9 concedida pelo poeta, n\u00e3o conquistada pela mulher retratada.<\/p>\n<p>Talvez a diferen\u00e7a entre o Z\u00e9Carlos de dez anos atr\u00e1s e o de hoje seja esta: antes, eu queria convencer o leitor a superar o pudor e entrar no erotismo drummoniano sem reservas. Hoje quero convid\u00e1-los a entrar com os olhos bem abertos \u2014 deslumbrado com a forma, mas tamb\u00e9m atento a quem fala, de onde fala, e sobre quem fala. A poesia er\u00f3tica de Drummond continua sendo, para mim, &#8220;puro orgasmo&#8221; de linguagem. S\u00f3 que agora escuto, ao lado dela, as vozes que tamb\u00e9m mereciam gritar \u2014 e que a hist\u00f3ria insistiu em silenciar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;No m\u00e1rmore de tua bunda gravei o meu epit\u00e1fio. Agora que nos separamos, minha morte j\u00e1 n\u00e3o me pertence. 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